Comportamento

Semanalmente, um psicólogo associado da Ser-PSI escreve abordando um tema relevante. A Ser-PSI, é uma associação formada por profissionais e estudantes de psicologia, das cidades de Carlos Barbosa e Garibaldi. Fundada em 2008, o grupo atua na integração dos profissionais, promovendo estudo e pesquisa, além de voltar-se à integração com estudantes e a comunidade.

Reflexões sobre a saúde mental Infantil

19/10/2017 - Fonte: Portal Adesso

Compartilhe:

     A sociedade contemporânea é permeada pelo individualismo, o imediatismo e a rapidez das informações. Nesse sentido, tais fenômenos atravessam as pessoas e consequentemente a realidade familiar. Na atualidade, as pessoas não têm tempo para prestar atenção umas nas outras, olhar para seus filhos e perguntar como realmente estão.  A principal preocupação familiar, costuma voltar-se para o bem-estar físico e a quantidade de bens materiais, principalmente em datas comemorativas, como o dia das crianças. Entretanto, torna-se importante destacar que o cuidado físico e o conforto são essenciais para o bem-estar das crianças. Por outro lado, o problema acontece quando tais preocupações, acabam sendo as únicas e principais.

     Portanto, podemos pensar: Quais são as implicações da falta do olhar familiar na vida emocional das crianças? Autores como Sinibaldi (2013) entendem que a infância é considerada uma importante fase do desenvolvimento humano, uma vez que se apresenta como estruturante na formação do futuro adulto. Além disso, a infância é tangenciada por diversos fatores, tais como o físico, intelectual e emocional. Nesse sentido, aponta-se a relevância do ambiente social e do aspecto emocional para a maturação do aparelho psíquico.

     Pesquisas internacionais mostram que a prevalência de transtornos mentais em crianças e adolescentes é de elevada, ou seja, uma entre quatro a cinco crianças e adolescentes, em âmbito mundial, possui um tipo de transtorno mental (PATEL, et al, 2007). Dessa forma, a vulnerabilidade e fragilidade dos vínculos familiares podem dificultar o desenvolvimento da criança e favorecer o aumento de fatores de riscos psicossociais na vida adulta. (SILVA, et al, 2012).

     Nesse sentido, um dos fatores de proteção contra os transtornos mentais são os vínculos familiares, como afeto, carinho, proteção, orientação e apoio. A saúde mental de crianças está relacionada com a qualidade dos vínculos afetivos estabelecidos ao longo da infância na relação familiar (BOLWBY, 1998). Tais vínculos são a base da estruturação da personalidade, uma vez as experiências durante a infância são essenciais para que a criança apresente recursos/ferramentas internos e externos para lidar com as conflitivas apresentadas durante a vida.

     Assim, a qualidade dos vínculos e as emoções das crianças estão na origem de toda linguagem, o que torna possível a comunicação da criança. Dessa forma as emoções são as primeiras manifestações sociais e contribuem com o desenvolvimento intelectual. Diante disso, a afetividade, ocupa um lugar privilegiado no desenvolvimento mental e intelectual da criança, desempenhando uma função de organização e de sustentação das atividades psíquicas, sendo indispensável e indissociável das diferentes tarefas e atividades desenvolvidas pelo ser humano (ALMEIDA, 1993).

     Dessa forma, a família deve promover um ambiente continente, que favoreça o sentimento de pertencimento, um elevado nível de autoestima, expectativas positivas quanto ao futuro, percepção de positividade nas relações com a família, com a escola, religião e comunidade. Como também, os pais devem ficar mais pertos das crianças, estimulando o convívio em família e amigos ao ar livre e sem uso de internet, conversar sobre uso positivo das tecnologias e uso nocivo, sobre perigos e riscos, desconhecidos e exposições, criar tempo para ser pai/mãe sem internet, fazer refeições em família, à mesa, sem tecnologias, planejar férias longe de wi-fi, computadores e celulares. E o mais importante, brincar, olhar e abraçar os filhos. 

     Os estilos parentais devem ser permeados pelo estilo Autoritativo, na qual, os pais estabelecem uma relação com seu filho permeada pela afetividade, responsividade e autoridade. Além disso, outro ponto importante é a qualidade do relacionamento conjugal. A forma como o casal se relaciona, se respeita, se compreende e resolve os conflitos conjugais exercem influência direta no desenvolvimento dos filhos. Estudos apontam que as um ambiente violento, permeado pelas brigas, discussões e falta de afeto entre o casal podem influenciar até mesmo no possível aparecimento de déficits e transtornos psicoafetivos, principalmente em crianças.

     Portanto, é necessário que as famílias atentem para a vida emocional de seus filhos. A construção da personalidade de um ser humano está para além das necessidades físicas, mas sim emocionais e sociais. A identificação de sintomas psicopatológicos, como ansiedade, depressão, estresse são essenciais para que, quando necessário, os pais busquem ajuda especializada, como um psicólogo. A terapia é um importante instrumento de ajuda diante das dificuldades familiares e estar disposto a enfrentar os conflitos é um indicador de mudança já de início. Portanto, estar disposto a olhar para os filhos é também um exercício de alteridade.

 

Patricia Dotta

Psicóloga - CRP 07/26999

Mestranda em Psicologia Clínica (UNISINOS)

Laboratório de Estudos em Psicoterapia e Psicopatologia.

Compartilhe:

deixe seu comentário

Publicidade: