Comportamento

Semanalmente, um psicólogo associado da Ser-PSI escreve abordando um tema relevante. A Ser-PSI, é uma associação formada por profissionais e estudantes de psicologia, das cidades de Carlos Barbosa e Garibaldi. Fundada em 2008, o grupo atua na integração dos profissionais, promovendo estudo e pesquisa, além de voltar-se à integração com estudantes e a comunidade.

A violência invisível e suas marcas

14/12/2017 - Fonte: Portal Adesso

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     Diariamente vemos muitas formas de maus-tratos infantil divulgados na mídia. O abandono, a exploração do trabalho infantil, a apropriação ilegal, o abuso sexual, etc. Sofrimentos que marcam e impedem a estrutura do psiquismo.

     Como profissional da saúde, minha intenção é compreender as consequências dos maus-tratos na constituição psíquica e quais as saídas possíveis nesses casos. Porém, minha preocupação maior são os maus-tratos "invisíveis", que ocorrem silenciosamente, dentro das famílias, sem ninguém perceber a gravidade.

     Estas famílias são, na maioria das vezes, muito fechadas, não há um intercâmbio fluido com o resto do mundo. Os vínculos dentro da família são desconectados de afeto. Cada um está isolado, absolutamente sozinho, mesmo estando com os outros. Não há espaço para privacidade, nem espaços de integração entre os membros da família e, os contatos são através de ofensas, ou de gritos, ou silêncios, ou xingamentos. Os filhos são propriedades dos pais. O filho é vivido como algo próprio que podem manipular conforme sua vontade.

     Muitas vezes o desejo dos pais é ter um boneco, não um bebê que chora que precisa comer a toda hora. Ou os pais esperam que o filho venha para salvá-los, ou para salvar o casamento. E se isso não acontece fica intolerável para eles. O choro de um bebê pode atormentar os pais. Ou a separação que acontece quando o bebê começa a caminhar e mostrar sua própria vontade. A criança pode representar uma ameaça como mostra o depoimento de uma mãe: “quando bebê era um anjo, comia e dormia. Quando começou a engatinhar nunca mais tive sossego. Nunca está quieta no lugar.”

     Quando os adultos que se encarregam da função de pais, tem consciência de que estão frente a um outro, com um corpo, com seu próprio desejo, um ser com direitos, nestes casos a relação de pais e filhos será diferente. A criança precisa ter um lugar, ser reconhecido como tal, para que consiga construir uma autoimagem com uma estrutura que o sustente nos momentos de crise, para que tenha o desejo de viver. Os pais suficientemente bons precisam ter normas incorporadas para permitir a um filho sua história singular. O ambiente familiar deve ser confiável e suficientemente estável para que a criança consiga construir seu espaço psíquico.

     Existem diferentes tipos de violência, neste trabalho ressalto a violência por déficit, que se caracteriza pela ausência de cuidados, regras e contenção, é o caso dos filhos abandonados, os que ficam expostos a suas próprias sensações e exigências internas e não conseguem fazer ligação que tenha uma coerência ou que faça algum sentido. Não conseguem elaborar a ausência, não houve presença materna. Uma violência desestruturante se instala. Traumas por vazio. E este abandono não é a falta da presença física, mas sim, a falta de olhar para a individualidade do filho. Às vezes as ameaças e as ofensas constantes: “és um burro”, “ és mau", "és um inútil". Outras vezes muitas exigências descabidas deixam marcas de dor.

     Um dos elementos constitutivos do psiquismo é a esperança de obter ajuda externa.

     O problema é quando a violência vem de todos os membros da família e também do social e, portanto, não há ninguém para se esperar ajuda externa. Quais os efeitos quando não há esperança?

     Os efeitos da violência são diferentes quando vem de estranhos, ou quando vem daqueles investidos de afeto. E também se a violência se deu desde o começo da vida.

     Neste caso não há registros de sensações e afetos, e a sensação mesma de viver não se constitui.

     Nos perguntamos quais as marcas que esta violência deixa no psiquismo?

     Segundo J. Lewis Herman os sintomas do stress pós-traumático pode se dar por um estado de alerta constante com irritabilidade. A violência vivida pode invadir a vida cotidiana, os pensamentos e os sonhos. A pessoa pode entrar num estado de derrota, com sentimento de incapacidade para sentir e para agir, falta de juízo crítico e de iniciativa. Mostra-se com indiferença e frieza emocional. Às vezes esses estados se alternam ora com sentimentos intensos, ora estados de não sentir. Atitudes intensas e compulsivas ou uma total inibição da ação. Este comportamento alternado aumenta ainda mais o sentimento de desvalia. Já uma criança com pais "suficientemente bons" consegue fazer registros das diferenças e sentir-se vivo. Sentir prazer no contato, em escutar música, em ler uma história. As crianças maltratadas não.

     Estas parecem crianças anestesiadas, que precisam ser sacudidas, ou procurar o perigo, drogar-se, jogar-se contra o mundo, buscando sensações fortes. Existe uma apatia afetiva, se anula a capacidade de fazer registros dos afetos. Predomina uma não consciência, uma incapacidade de antecipar situações posteriores. Há uma confusão identificatória. A criança não sabe quem é. Pode criar uma identidade por identificação com aquilo que os outros supõem que o define: tonto, burro, etc. Às vezes aceitam a ideia de ser malvados como justificativa de serem maltratados. Alguns ficam recolhidos na sua toca. Outros saem em ataque tentando dar conta da angústia permanente.

     A violência pode seguir na forma ativa ou passiva, ou a criança identifica-se com o agressor, ou busca alguém que o maltrate. Pode surgir uma atitude vingativa: "algo me fizeram e merecem pagar". Levando a situações de delinquência. Muitos manifestam déficit de atenção, com dificuldades escolares. É comum ambientes de muito abandono provocar desatenção em aula. Por não estarem atentos ao mundo, acabam não percebendo a angústia sinal. Podem ter atitudes de descarga, com agitação e desorganização.

     Estas possibilidades de manifestação podem sobrepor-se. Existem caminhos para a elaboração de tamanha dor e desse total desinvestimento? A criança precisa instaurar condições de ligação, de elaboração e de simbolização. Existem golpes sem palavras onde nada pode ser dito, que entra num lugar onde o silêncio impera. Prefere esquecer tudo aquilo que dói, manter em segredo. Por isso faz-se necessário dar a palavra à criança, escutá-la.

     No entanto, dar a palavra a uma criança, muito mais do que pedir que ela fale, é saber escutá-la.

     A criança detecta aquilo que se espera dela. E se o que se espera é que "ela não diga", terá que vencer este obstáculo, pois além da sua própria dificuldade para colocar em palavras o que não teve palavras, precisa também desobedecer ao mandato temido que ordena silêncio.

     Beatriz Janin diz: "Escutar uma criança é também escutar o que ela não pode dizer".

     Às vezes o olhar parado de uma criança diz mais que muitas palavras. Então, temos que ter em mente diferentes tipos de linguagens: linguagem gestual, linguagem gráfica, linguagem lúdica, linguagem verbal (pensando que as palavras não tem sempre o mesmo valor que para um adulto). Claro que a prevenção é sempre o melhor remédio, fazer este exercício de escutar nossas crianças. E, se o sofrimento já está presente, pode-se buscar ajuda de um profissional. Lembrando que um dos elementos constitutivos do psiquismo é a esperança de obter ajuda externa, precisamos oferecer um espaço, reconhecê-lo como tal.

     Um lugar confiável e estável. Dando-lhe a palavra, escutando aquilo que diz com ou sem palavras.

     O trabalho do psicólogo vai ajudando a criança a armar o relato, uma história, uma trama que sustente o vazio e as marcas da dor.

 

     Sandra Maria Camini Fachini

     Psicóloga Clínica CRP:07/07773

     Atende crianças, adolescentes e adultos.

     Especialista em atendimento de casal e família

 

 

 

 

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