Irineu Guarnier Filho

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio e vinhos, atua cobrindo este setor há cerca de 30 anos.

Invasão não é violência?

19/04/2018 - Fonte: Portal Adesso

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     Repórter de rádio dizia, nesta semana, que a invasão da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Estado por “militantes” do MST e da Via Campesina se deu “sem violência”. Tão acostumados estamos com o pisoteamento das leis e da ordem, e com atentados ao estado democrático de direito, que a invasão de um prédio público já é aceita como algo absolutamente normal - quando não há feridos ou mortos.

     O cerceamento ao direito dos funcionários de trabalharem, e a própria “ocupação” ilegal de um patrimônio público não são considerados, em si, uma violência. Afinal, é “só” uma invasão. A subversão de valores é tão profunda que nem nos damos mais conta dessas barbaridades. Vamos bem...

CRÉDITO FUNDIÁRIO MAIOR VAI DEMORAR

     Semanas atrás, comentei aqui que o limite do Crédito Fundiário, ampliado de R$ 80 mil para R$ 140 mil neste ano, deveria chegar nos próximos dias aos produtores interessados em adquirir um lote de terra – se a burocracia bancária não apresentasse nenhum obstáculo.

     Pois aconteceu o pior. A imprensa noticiou nesta semana que as contratações acima de R$ 80 mil só poderão ser feitas a partir de setembro. O atraso se deve à necessidade de ajustes no sistema operacional do Banco do Brasil. Em outras palavras, problemas na máquina burocrática do Estado.

     A notícia frustrou entidades como a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag), que há tempos vêm pedindo uma atualização nos valores para a aquisição de terras. No estado, a demanda é grande: mais de 2 mil agricultores estão habilitados a solicitar esses recursos.

     A medida é considerada fundamental para estimular a permanência dos jovens no campo – mesmo sendo um paliativo. Afinal, quanta terra se pode comprar com apenas R$ 140 mil? Em regiões de agricultura comercial intensiva aqui no estado um hectare de terra muito boa não custa hoje em dia menos de RS 200 mil. De qualquer maneira, ruim com este crédito, pior sem ele. Daí a urgência cobrada para a sua liberação.

TRADIÇÃO NÃO SE COMPRA

     Uma historinha bem conhecida no mundo do vinho ilustra de forma bem-humorada a célebre rivalidade entre os vitivinicultores europeus e os seus colegas do Novo Mundo (EUA, Austrália, Chile etc).

     É mais ou menos assim. Dizem que um empresário norte-americano certa vez decidiu produzir, na California, vinhos tão bons ou melhores do que os grandes vinhos franceses de Bordeaux. Como era muito rico, importou uma vinícola inteira da França. Tijolos, telhas, tanques, prensas, pipas, videiras, além de agricultores, operários, enólogos – até mesmo a terra. Todo um sistema de produção foi transplantado de Bordeaux para a California.

     Algum tempo depois, o empresário americano chamou os maiores especialistas franceses para degustar os vinhos da primeira safra “à francesa” produzida nos EUA. O maior de todos os conhecedores franceses fez o vinho girar no cálice, analisou visualmente a bebida, aspirou profundamente o bouquet, bebeu um pequeno gole, fechou os olhos e exclamou:

     – Humm…Bem bom. Com mais 200 anos de experiência vocês estarão fazendo vinhos iguais aos nossos.

     Em tempo: hoje, o americano desta anedota poderia muito bem ser substituído por empresários chineses, que estão comprando o que podem em Bordeaux para fazer da China uma potência vinícola.

 

 

 

 

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