Irineu Guarnier Filho

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio e vinhos, atua cobrindo este setor há cerca de 30 anos.

Vacinação Contra a Aftosa: Até quando?

14/05/2018 - Fonte: Portal Adesso

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     Começou na semana passada, e se estenderá até o final do mês, a primeira etapa da campanha de vacinação contra a febre aftosa no Rio Grande do Sul. Estima-se que 13,8 milhões de bovinos e bubalinos serão vacinados. Enquanto o estado conservar o título de Área Livre de Febre Aftosa Com Vacinação, da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), a vacina será obrigatória.

     Mas, talvez já tenha chegado a hora de questionarmos se é isso mesmo o que a pecuária gaúcha quer para si. Até quando vamos imunizar nosso rebanho? Embora países como o Uruguai, que vacina seu gado, exportem carne in natura para os Estados Unidos, e mesmo o Brasil já tenha feito remessas quase simbólicas deste tipo de produto para lá (além da carne industrializada), sabe-se que países imunizadores compõem uma espécie de “segunda divisão” no exigente mercado internacional de carnes. A carne premium, mais bem cotada, é a de países sem vacinação.

     Para ingressar nesse seleto clube, o Rio Grande do Sul algum dia terá de abandonar a vacina – como fizeram os EUA em 1929. Claro que essa decisão requer forte investimento em vigilância sanitária, além de um trabalho de prevenção ao vírus coordenado com países vizinhos como o Uruguai, a Argentina e o Paraguai, com os quais compartilhamos fronteiras permeáveis e pouco guarnecidas.

     Entidades representativas dos produtores têm se mostrado reticentes quanto a possibilidade de suspensão da vacina, principalmente por conta do baixo investimento público em vigilância sanitária e de fronteiras. Mas isso não pode servir de desculpa para continuarmos eternamente estacionados no mesmo status sanitário. Santa Catarina há muito tempo já é Área Livre de Febre Aftosa Sem Vacinação (o que beneficiou a sua suinocultura). E estados como Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo já discutem abertamente a possibilidade de suspender a vacina. Governo e iniciativa privada terão de fazer a sua parte, mais cedo ou mais tarde.

 

REFORÇO NA FISCALIZAÇÃO AGROPECUÁRIA

     Ainda que não existam boas razões técnicas para o embargo europeu a 20 frigoríficos brasileiros exportadores de carne de frango, a verdade é que o Brasil precisa se preparar melhor para a guerra comercial. Qualquer motivo pode ser usado para embargar carregamentos – até mesmo as recentes denúncias das operações Carne Fraca e Trapaça, que dizem respeito a problemas pontuais no setor. O país não pode relaxar na fiscalização de carnes e grãos, sob pena de favorecer importadores nem sempre bem intencionados e a concorrência internacional.

     Já vimos a Rússia fazer isso com a carne suína brasileira, e a China devolver navios carregados com soja alegando contaminação química do produto. Logo em seguida, quando o preço cai ou falta mercadoria no mercado, esses mesmos países voltam a importar do Brasil a carne e o grão que haviam recusado. Não se pode desconhecer o impacto de um embargo dessas proporções – União Europeia, China e Rússia podem desestabilizar qualquer mercado – sobre os preços das commodities. Para uma potência agrícola tão dependente do mercado externo como o Brasil a vulnerabilidade é enorme.

     Na Agrishow, de Ribeirão Preto (SP), o ex-ministro da Agricultura e atual coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Roberto Rodrigues, disse que a vigilância sanitária brasileira é boa – mas pode ser aperfeiçoada. Rodrigues reconheceu que o governo não tem condições de fiscalizar todo o país, e defendeu a criação de uma nova entidade – com a participação da iniciativa privada – para dar conta desta missão. Uma parceria público-privada poderia reforçar o controle sanitário e oferecer maior segurança aos exportadores. Embora os fiscais públicos se rebelem contra a participação de médicos veterinários independentes na fiscalização de abates em frigoríficos, por exemplo, o crescimento da produção exigirá cada vez mais a participação desses profissionais no processo. Pior para o agronegócio como um todo é ter cargas devolvidas por eventuais problemas na fiscalização.

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