Irineu Guarnier Filho

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio e vinhos, atua cobrindo este setor há cerca de 30 anos.

Agronegócio revisa apoio à greve

31/05/2018 - Fonte: Portal Adesso

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     A paralisação dos caminhoneiros teve o impacto de um terremoto de 9 pontos (Escala Richter) no agronegócio. Nesta semana, as principais entidades do setor – algumas das quais apoiaram inicialmente o movimento – começaram a contabilizar as perdas. Os segmentos de carnes, lácteos e hortifrutigranjeiros, que trabalham com produtos altamente perecíveis (e dependentes, em muitos casos, de refrigeração), são os mais prejudicados pelo protesto que parou o país.

     A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que os produtores rurais brasileiros perderam pelo menos R$ 6,6 bilhões até o nono dia da paralisação. E calculou que agricultores e pecuaristas levarão de seis meses a um ano para recuperar o ritmo de produção. “Este prejuízo é apenas na produção primária, sem considerar ainda o processamento, as indústrias e a parte de insumos, que estão tendo prejuízos severos. E ainda fora o que está por vir, porque a recuperação não é imediata”, declarou o superintendente técnico da CNA, Bruno Lucchi. E acrescentou: “O impacto é econômico, social e ambiental”

 

O IMPACTO NA AVICULTURA

     A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que – justiça seja feita – desde o início da paralisação vinha alertando para o risco que corriam as cargas vivas (frangos e suínos) estacionadas às margens das rodovias, divulgou que mais de 70 milhões de aves foram perdidas. Chamou a atenção, também, para a iminência de um desastre ambiental: onde serão descartadas todas essas carcaças, sem contaminar rios e lençol freático?

     A avicultura, que já amargava uma queda nas exportações por causa do boicote europeu a 20 frigoríficos brasileiros, terá sérios problemas pela frente. “A inconsequência dos atos nos piquetes terá impacto direto no poder de compra do consumidor. Com menor oferta de produtos, mas com a mesma carga tributária, mesmo custo operacional e possível alta nos insumos para a produção industrial, ficará mais caro produzir. Estima-se que os custos para a recuperação da normalidade do processo deverão ser 30% acima do anteriormente praticado. Com as exportações suspensas, cerca de 135 mil toneladas de carne de aves e de suínos deixaram de ser embarcadas desde o início da greve”, informou a ABPA em seu site.

 

AGRICULTURA FAMILIAR DESISTE DE APOIAR GREVE

     Inicialmente favorável à paralisação, por entender que o alto preço do Diesel também prejudica os agricultores familiares, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag) desembarcou do movimento na terça-feira, 29.

     Em nota oficial, declarou que “decorridos nove dias de paralisações, constatamos que a greve tomou um rumo que traz a perda de controle das mobilizações, passando a ter um foco político-ideológico. Mais de 100 mil famílias, que produzem leite, suíno, frango e hortifrutigranjeiros estão perdendo toda a produção.” Diante deste quadro, a Fetag achou melhor pedir aos seus associados para retirarem o apoio às mobilizações. “A Fetag-RS não pode mais concordar com uma manifestação que traz prejuízos desta magnitude para os agricultores”.

 

PARA ARROZEIROS, LIMITE FOI ULTRAPASSADO

     Outra entidade que apoiou o movimento dos caminhoneiros no início, mas que também mudou de posição à medida que a greve tornou-se mais agressiva e se deixou infiltrar por arruaceiros com motivações políticas nebulosas, foi a Federação das Associações de Arrozeiros do RS (Federarroz). A entidade divulgou nota na quarta, 30, lembrando que “parcela importante dos arrozeiros do Rio Grande do Sul não somente apoiou, mas também aderiu ao referido movimento, em virtude do mesmo sentimento de irresignação pela indiferença dos governantes, políticos e administradores frente aos constantes aumentos de custo de produção.”

     Mas, ao perceber a mudança na direção dos ventos, a entidade também revisou seu apoio. “A Federarroz, ciosa de sua missão institucional, recomendou às Associações ligadas a Federarroz que busquem retomar a normalidade de suas atividades, de modo que deixem de acompanhar o movimento dos caminhoneiros, na medida em que, salvo melhor juízo, os contornos da necessária legitimidade grevista estão sendo ultrapassados. Corrobora isso o fato do Governo Federal ter emitido esforços para atendimento da ampla pauta dos caminhoneiros, que de certa forma, também beneficiou agricultores com a redução do diesel.”

 

E AGORA?

     Com a paralisação se encaminhando para o seu final, o que vem por aí? Algumas projeções já podem ser feitas – com pouca margem de erro. Desabastecimento generalizado. Alta da inflação. Alimentos escassos e mais caros. Queda nas exportações. Aumento de impostos. Fechamento de empresas. Demissões. Recessão. E, no limite, instabilidade política. Ah, e a gasolina vai continuar caríssima...Não há nada muito ruim que não possa ficar pior.

 

 

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