Irineu Guarnier Filho

Irineu Guarnier Filho é jornalista especializado em agronegócio e vinhos, atua cobrindo este setor há cerca de 30 anos.

O Balanço das Perdas

09/06/2018 - Fonte: Portal Adesso

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     Encerrada a greve dos caminhoneiros, o país contabiliza as perdas causadas por onze dias de paralisação. Economistas preveem dias difíceis. A inflação, que estava dominada, volta a mostrar as garras – como já se observa nas gôndolas dos supermercados. O PIB do segundo trimestre pode sofrer um abalo. E o dólar disparou (Por razões internacionais, mas também pela preocupação do mercado com as concessões do governo Temer aos caminhoneiros). Com isso, o crescimento da economia, que já era pífio, pode ser anulado se as piores previsões se confirmarem.

     O agronegócio ainda vai amargar prejuízos por um bom tempo, além das perdas registradas nos lácteos, na avicultura, nos hortifrutigranjeiros e em vários outros segmentos. Até os caminhoneiros podem ser prejudicados. A tabela de preços mínimos de frete para os motoristas autônomos, uma das conquistas da greve, está paralisando o transporte de cargas agrícolas. Cerealistas pararam de carregar e tradings e corretoras deixaram de fazer negócios no estado. Isso porque a nova tabela aumentou o custo do frete em mais de 40% - uma perda de R$ 4 por saco de soja para os produtores. O governo Temer cedeu aos caminhoneiros, voltou atrás para atender aos empresários, e depois recuou novamente. A única certeza, por enquanto, é que vem mais confusão pela frente.



A DISPARADA DO DÓLAR

     O dólar rompeu a barreira de R$ 3,90 nesta semana (depois, com a intervenção do governo, a cotação cedeu um pouco). A moeda americana não era cotada acima deste valor desde março de 2016. A perspectiva de alta da inflação e queda do PIB, em consequência da paralisação dos caminhoneiros, preocupa o mercado – e a cotação do dólar reflete a incerteza do momento.

     Mas, se o agronegócio brasileiro é essencialmente exportador, isso não é bom para quem produz soja, milho ou carnes? Não é bem assim. Se, por um lado, a valorização do dólar fortalece os preços das commodities brasileiras, por outro, os preços de insumos essenciais importados, como os fertilizantes, também sobem, elevando o custo de produção das lavouras. Dólar alto frente ao real impacta desigualmente os diversos setores do agronegócio brasileiro. O que é bom para uns, pode não ser tão vantajoso para outros.


FORA DOS TRILHOS

     O saldo positivo da greve dos caminhoneiros, para a sociedade, foi a constatação de dois erros monumentais cometidos pelo país: a manutenção de uma mastodôntica petroleira estatal e a extrema dependência do transporte rodoviário. Nunca como agora os trens foram lembrados com tanta saudade. Durante a greve, apenas cidades abastecidas de combustíveis por trens, como Bauru, em São Paulo, e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, não enfrentaram maiores problemas.

     Estudo divulgado nesta semana pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) confirmou a difícil situação do transporte de cargas por ferrovias no país. A CNI mostrou que cerca de 30% dos trilhos estão inutilizados e 23% não têm condições de suportarem o tráfego de composições de carga. Intitulado “Transporte ferroviário: colocando a competitividade nos trilhos”, o estudo da CNI baseia-se em dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e será encaminhado aos candidatos à Presidência da República.
Os números revelados pelo estudo dão conta de que a malha ferroviária nacional tem cerca de 28,2 mil quilômetros de extensão, mas 8,6 mil não são utilizados. Além disso, as empresas beneficiadas por concessões na década de 1990 operam sem concorrência e sem conexão, ou seja, uma empresa não utiliza a malha da outra para levar cargas até o destino. O estudo fala em assegurar “direito de passagem” para que as empresas possam utilizar toda a rede existente. Hoje, o compartilhamento de redes está restrito a apenas 8% da malha. Muito pouco para que o transporte ferroviário seja economicamente sustentável.

     Sim, é mais caro construir ferrovias do que rodovias, mas, a longo prazo, os benefícios para o país são muito maiores, como a redução do número de acidentes nas estradas, da poluição ambiental, do custo de fretes e mercadorias – e até da vulnerabilidade do abastecimento em casos de paralisações como a dos caminhoneiros.

 

 

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