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Os bons tempos da pacata Garibaldi

19/01/2014 Portal Adesso

     Nasci no início dos anos 80, época em que o país caminhava para a democracia e o município de Garibaldi contava com cerca de 10 ou 12 mil habitantes. Logicamente, não tenho em mente recordações dos primeiros anos de vida, mas possuo lembranças a partir dos 5, 6 anos, quando fervilhavam os movimentos sociais e os generais deixavam o poder. Naquela época, as crianças e os jovens achavam magníficas as fardas verde oliva e os jipes dos militares, muitos sonhavam em integrar o Exército algum dia.

     Hoje,  o Brasil vive um momento em que impera a baderna, onde condenados por corrupção tentam posar de vítima e heróis e ai me vem a lembrança daquele período da infância onde as coisas eram bem diferentes, principalmente na minha Garibaldi.

     De política, a única coisa que lembro é que eu adorava ficar dentro da "Brasília" do meu avô escutando rádio e as noticias que ouvia falavam o tempo todo de um tal Sarney e do Plano Cruzado. Eu não entendia isso, mas achava legal aqueles repórteres que falavam de diversos locais ao mesmo tempo.

     Mas, voltando à Garibaldi, lembro-me que quando viajávamos tínhamos o maior orgulho de dizer "Sou de Garibaldi", e saíamos contando a quem encontrávamos o que havia em nossa terra. Com os amigos de Carlos Barbosa, então,  a gente estufava o peito e esnobava alegando que o nosso municipio era maior.

     Nós, em Garibaldi, tínhamos a Escola Santo Antônio, dos Irmãos Maristas; o Ir. Severino Susin; o David Sottili e o Ir. Jacob, este último mais gordo e com um jeito engraçado. A Rádio Difusora Garibaldi era administrada pelo Frei Nicolau Lucian e o prefeito era o Ambrósio Chesini, que andava com um carro Del Rey de cor cinza.

     Falando em prefeitura, ela funcionava no antigo prédio e ao lado havia uma pequena praça. Atrás, era possível ver o estacionamento com enormes máquinas que chamávamos de patrolas e um imenso pátio que fazia divisa com o Hospital São Pedro. Nas proximidades, ainda existia a agencia da CEEE, a União de Moços Católicos e o Cine Rex, local frequentado, principalmente, por adultos.
 
     Mesmo pequenos, as vezes passeávamos de bicicleta até a Ermida e lá havia sempre muitas  pessoas tomando chimarrão, conversando, era um lugar bastante freqüentado. Era duro subir a enorme ladeira, mas ao chegar lá em cima nos deparávamos com a vista da estação de esqui, que ficava do outro lado da cidade. No início da Rua Júlio de Castilhos  podíamos ver uma grande casa de madeira pertencente à família Koff, que devido às  marcas do tempo mais parecia que ia desabar. A familia se dedicava a vender roupas.
 
     Garibaldi era bem menor, com famílias tradicionais, onde a grande maioria se conhecia. Sempre me volta à memória as festas que eram realizadas para as crianças na ex-Praça das Rosas e dos almoços no Restaurante Precioso, ao lado do Clube 1º de Maio.  Ali, na Av. Rio Branco, também existia a Livraria da Maria onde era certo que encontraríamos cadernos e  lápis de cor. Também a Ferragem Cisilotto e a esquina das bebidas da família Loss. Mas lembro ainda do tal "Canta Galo", uma casa velha onde funcionava um bar ou cancha de bocha, local, segundo alguns, onde havia desacerto entre os frequentadores.

     Ainda na Av. Rio Branco tinha uma praça de táxi onde trabalhavam o Bonetti e o Leotério. E, recordando dos taxistas da cidade, me vem o famoso "Cava Milho", o "Caputcha" e o Benjamim Brandelli que andava a dez por hora e nunca parava nas preferenciais. O "Cava Milho" tinha um antigo Gol BX. Uma vez perdeu o controle do veículo e entrou em um milharal. Daí o apelido "Cava Milho". Nós, crianças, adorávamos a história.

     Quanto ao Leotério, tenho a lembrança de quando eu já estava nos tempos de escola, lá pela 3ª série. Eu estudava no período da tarde e,  diariamente, às 12h45, eu passava por ali com destino à Escola Santo Antônio,e sempre  via o Leotério com a porta do carro (um Passat) aberta, ouvindo alto o Correspondente Renner, na Rádio Guaíba.  Jamais poderia imaginar que, após alguns anos, eu me formaria jornalista e trabalharia na Rádio Guaíba que o falecido Eleotério e todo mundo que passava pela calçada naquele horário escutava.

     Para ver as tragédias automobilísticas toda a cidade corria até o Guincho do Jaide que funcionava próximo ao "INPS", e depois ao lado do lavador de batata do Hilário Cignachi. Existia ainda a "Casa do Guarda Roupa" e a Bortolini Materiais de Construção, que ficava próximo a uma ponte do arroio Marrecão, ali próximo onde hoje é a Tonho Auto Peças.

     São tantas as lembranças que daria para escrever um livro com tudo o que Garibaldi me traz daquela época, mas finalizo lembrando das grande gincanas que eram promovidas. Lembro das equipes: Eki Coloni, KGB Máfia e a Snoopy.

     Felizmente, ou infelizmente, este é um período que não volta mais, uma época em que não existia computador e nossa cidade era muito mais sossegada.

     Agora eu pergunto: por que não podemos transformar Garibaldi novamente em uma cidade tranqüila, desenvolvida e acolhedora?

     Se antes brincávamos que éramos maiores que Carlos Barbosa hoje estamos perdendo. Alías, de todos os municípios da região, somos o que menos está crescendo. Amarguramos dezenas de perdas com empresas que foram embora, Estação de Esqui fechada e sequer temos uma praça onde podemos sentar e apreciar a natureza.  O que restou para os jovens de hoje? Ficar na Avenida Independência, bebendo e assistindo um desfile de carros, alguns barulhentos e dando diversas aceleradas? Ou as motos dando aquele ?estouro? e o piloto fazendo malabarismos?

     Jamais podemos ser pessimistas, mas se continuarmos assim, nosso futuro será triste. Garibaldi não pode deixar para trás sua história, seus personagens e deve sim aprender com o passado para transformar o futuro.

     Acredito que as entidades de classe que são muito bem organizadas em Garibaldi e servem de exemplo para outros municípios devem debater mais sobre o nosso futuro, e principalmente cobrar das atuais autoridades que melhorias e mudanças sejam feitas. .

     Garibaldi é muito maior do que os que administram, e não podemos permitir que nossa cidade seja esquecida ou fique no descaso. 

 

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Daniel Carniel

Daniel Carniel

Natural de Garibaldi, Daniel Carniel é formado em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo, e tem experiência em Rádio, TV, Jornal, e Assessoria de Imprensa. Iniciou a carreira na Rádio Planalto AM de Passo Fundo e atuou no Jornal Novo Tempo de Garibaldi, TV Record, e nas rádios Guaíba e Gaúcha de Porto Alegre. Acadêmico de Direito na Escola Superior do Ministério Público integrou a assessoria de imprensa do vice-governador do Rio Grande do Sul entre 2011 e 2014. Atualmente é sócio proprietário da Diffusione Comunicação,empresa que tem sede em Garibaldi RS
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