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O Brasil será outro após estas manifestações. Seguramente, melhor

19/07/2013 Beto Grill

Nada será como antes

 

"Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã."
Milton Nascimento

Estamos todos refletindo mais do que antes. E formulando. Esta é a primeira e fundamental consequência do movimento. Já é rico o acervo de artigos, comentários, interpretações e opiniões do significado da ida dos jovens à rua.
O Brasil será outro após estas manifestações. Seguramente, melhor. É uma geração que se expõe e sai da zona de conforto para questionar, dizer da sua inconformidade, da sua irresignação. Provoca a crise. Talvez ainda não saiba bem o que quer, mas tem claro o que repudia, incomoda, o que deve ser banido ou recomposto em outros moldes.


O descontentamento salta aos olhos. Expressa-se na multidão que toma as ruas impulsionada pelo alcance massivo da mensagem compartilhada na rede. Apresenta-se sem uma liderança estabelecida muito pela omissão dos partidos e dos movimentos sociais tradicionais _ que, acomodados em gabinetes, não perceberam a existência de novos contenciosos.


A ausência dessas lideranças abre também um espaço que se torna palco para a ação de extremistas. Estes aproveitam o momento e fazem apologia ao caos, pregam o fundamentalismo, discursos moralistas e golpistas. Veículos de comunicação, contestados pelo movimento, usam a informação para fragilizar os partidos e a política. A rebeldia é bem-vinda, mesmo que sujeita à influência destes grupos, e, portanto, passível de distorções. Serve como um alerta de que as coisas não vão bem.
A ineficiência e o comprometimento do Legislativo, a elitização e a morosidade do Judiciário e os equívocos na escolha das prioridades por parte do Executivo _ que decidem, frequentemente, à revelia da participação popular, em processos por vezes acompanhados de uma zona cinzenta de corrupção _ tornam necessárias medidas imediatas e concretas.


Compreendido o fenômeno, que aponta para uma necessidade de mudança de comportamento e de garantia de direitos, precisamos passar à ação efetiva, estabelecendo uma nova relação entre o povo e o Estado. Os partidos, indispensáveis para a organização da sociedade, devem se reciclar e assumir o seu papel. Sistematizar o conjunto de demandas originadas no movimento e propor ao Congresso e ao governo as medidas adequadas para instituí-las.


Fica claro que devem constar nesta agenda um novo pacto federativo; as reformas política, judiciária e urbana (que assegure mobilidade e promova uma revisão no modelo de segurança pública); urgentes investimentos e aprimoramento da gestão na saúde e na educação; e a modernização e ampliação do processo democrático, com o aperfeiçoamento das ferramentas de participação popular.

 

 

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