Canetinhas emagrecedoras colocam o galeto em “dieta involuntária” na Serra
A popularização de medicamentos como Ozempic, Mounjaro e outras chamadas “canetas emagrecedoras” já começa a provocar efeitos que vão além do campo da saúde e da estética. Na Serra Gaúcha, região marcada pela forte tradição gastronômica e pelas refeições farta da culinária italiana, restaurantes relatam mudanças claras no comportamento dos consumidores e passam a adaptar cardápios diante de um novo perfil de cliente.
Um levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) indica que 61% dos empresários do setor já percebem redução na quantidade de alimentos consumidos por cliente. Outros 64% relatam aumento na procura por porções menores, enquanto mais de 70% observam crescimento na demanda por opções mais leves e equilibradas. O movimento ocorre em paralelo à expansão do uso desses medicamentos no país. Recentemente, chegou ao mercado brasileiro a primeira versão nacional de uma caneta emagrecedora, com preço inferior ao dos produtos importados, ampliando o acesso ao tratamento e, consequentemente, influenciando hábitos alimentares. O medicamento é encontrado por R$ 287 por mês de tratamento, valor que torna as canetas ainda mais acessíveis ao consumidor — o custo é bem menor em relação às primeiras que chegaram ao mercado: a dose de 2,5mg de Mounjaro, por exemplo, custa, em média, R$ 1,9mil.
Em Bento Gonçalves, o restaurante Di Paolo, conhecido pela tradicional sequência de galeto e acompanhamentos, já identifica reflexos diretos da mudança de comportamento dos clientes. Segundo o sócio-gerente Emiliano Castaman, embora o cardápio principal siga com alta demanda, cresce a procura por alternativas mais leves, como carnes grelhadas e saladas. “Hoje vemos pessoas buscando refeições mais equilibradas. Muitos clientes continuam frequentando os restaurantes, mas fazem escolhas diferentes das que faziam alguns anos atrás”, afirma. A mudança também é perceptível no consumo de bebidas. Refrigerantes perdem espaço para água, sucos naturais, sodas italianas e versões sem álcool. No caso do vinho, um comportamento antes incomum passa a se tornar mais frequente: em vez de garrafas inteiras, clientes optam por taças individuais ou meia garrafa.
Especialistas apontam que a combinação entre avanço dos medicamentos para controle de peso e maior preocupação com saúde e bem-estar pode gerar uma transformação estrutural nos hábitos alimentares dos brasileiros. Na Serra Gaúcha, onde a gastronomia é também um dos pilares do turismo, o desafio dos estabelecimentos é equilibrar tradição e adaptação, mantendo a experiência da mesa farta, mas em sintonia com um consumidor que passa a comer menos, escolher melhor e priorizar opções mais leves.
A tendência, segundo empresários do setor, é que essas mudanças se consolidem nos próximos anos, redesenhando a forma como os brasileiros consomem alimentação fora de casa.
