Enquanto gaúchos agonizam nas filas, Eduardo Leite se opera em hospital particular de São Paulo
Enquanto milhares de gaúchos enfrentam meses — e até anos — de espera por uma simples consulta ou cirurgia pelo SUS, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), passou por um procedimento médico em um dos hospitais mais caros de São Paulo. A intervenção ocorreu na sexta-feira (26), no Vila Nova Star, onde Leite foi submetido a bloqueio na coluna cervical e lombar para tratar dores provocadas por hérnias de disco.
Sabendo das críticas que neste caso são justas, o governo emitiu Nota Oficial dizendo que a escolha pelo hospital paulista ocorreu porque a médica Ludhmila Hajjar, que acompanha o governador há anos, exerce sua atividade no local. A decisão, no entanto, expõe o contraste entre o acesso privilegiado do chefe do Executivo e a dura realidade vivida por quem depende da rede pública de saúde no Estado.
Levantamento aponta que o Rio Grande do Sul tem cerca de 670 mil pedidos de consultas em aberto no SUS, sendo 473 mil vinculados diretamente à Secretaria Estadual da Saúde. Somente entre 2023 e 2024, mais de 2,4 mil pessoas morreram enquanto aguardavam atendimento. As maiores filas se concentram em especialidades como ortopedia, oftalmologia, otorrinolaringologia e cirurgia geral. Na prática, pacientes em cidades do interior chegam a esperar mais de dois anos por um procedimento.
Apesar do cenário, os investimentos do governo estadual em saúde seguem sendo alvo de críticas. Programas como o SUS Gaúcho e o Avançar Mais na Saúde anunciaram aportes bilionários até 2026, mas o Tribunal de Contas do Estado (TCE) afirma que o governo não aplica o mínimo constitucional de 12% da receita em saúde. Segundo o órgão, em 2023 o Executivo investiu apenas cerca de 9%, deixando de aplicar R$ 1,3 bilhão no setor. Entidades como o Conselho Estadual de Saúde e sindicatos reforçam que parte dos valores declarados pelo governo inclui despesas questionáveis, como gastos com IPE-Saúde e saúde militar.
Em agosto deste ano, o Ministério Público firmou acordo com o governo para garantir o cumprimento dos 12%. Ainda assim, a desconfiança permanece entre especialistas e usuários do sistema.
O caso do governador reacende o debate sobre privilégios no acesso à saúde. Enquanto cidadãos aguardam meses por uma consulta de rotina, o mandatário estadual embarcou para outro estado em busca de atendimento imediato em uma estrutura privada de referência. Para críticos, o gesto simboliza o distanciamento entre a realidade enfrentada por quem depende do SUS e as condições usufruídas pela elite política. “Se o próprio governador prefere buscar atendimento fora, qual mensagem passa para quem espera no interior do Estado?”, questiona uma pessoa que atua na área da saúde ouvido pela reportagem.
Após o procedimento em São Paulo, Leite viajou a Buenos Aires para participar da Feira Internacional de Turismo e deve retornar a Porto Alegre nesta segunda-feira (29). Enquanto isso, a fila da saúde no Rio Grande do Sul continua crescendo — e para milhares de gaúchos, a espera pela vez na consulta é mais dolorosa do que qualquer hérnia de disco.
