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Enquanto gaúchos agonizam nas filas, Eduardo Leite se opera em hospital particular de São Paulo

Mais de 670 mil pessoas aguardam consultas no RS. Governador faz procedimento em outro Estado
29/09/2025
Portal Adesso

      Enquanto milhares de gaúchos enfrentam meses — e até anos — de espera por uma simples consulta ou cirurgia pelo SUS, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), passou por um procedimento médico em um dos hospitais mais caros de São Paulo. A intervenção ocorreu na sexta-feira (26), no Vila Nova Star, onde Leite foi submetido a bloqueio na coluna cervical e lombar para tratar dores provocadas por hérnias de disco.

     Sabendo das críticas que neste caso são justas, o governo emitiu Nota Oficial dizendo que a escolha pelo hospital paulista ocorreu porque a médica Ludhmila Hajjar, que acompanha o governador há anos, exerce sua atividade no local. A decisão, no entanto, expõe o contraste entre o acesso privilegiado do chefe do Executivo e a dura realidade vivida por quem depende da rede pública de saúde no Estado.

     Levantamento aponta que o Rio Grande do Sul tem cerca de 670 mil pedidos de consultas em aberto no SUS, sendo 473 mil vinculados diretamente à Secretaria Estadual da Saúde. Somente entre 2023 e 2024, mais de 2,4 mil pessoas morreram enquanto aguardavam atendimento. As maiores filas se concentram em especialidades como ortopedia, oftalmologia, otorrinolaringologia e cirurgia geral. Na prática, pacientes em cidades do interior chegam a esperar mais de dois anos por um procedimento.

     Apesar do cenário, os investimentos do governo estadual em saúde seguem sendo alvo de críticas. Programas como o SUS Gaúcho e o Avançar Mais na Saúde anunciaram aportes bilionários até 2026, mas o Tribunal de Contas do Estado (TCE) afirma que o governo não aplica o mínimo constitucional de 12% da receita em saúde. Segundo o órgão, em 2023 o Executivo investiu apenas cerca de 9%, deixando de aplicar R$ 1,3 bilhão no setor. Entidades como o Conselho Estadual de Saúde e sindicatos reforçam que parte dos valores declarados pelo governo inclui despesas questionáveis, como gastos com IPE-Saúde e saúde militar.

     Em agosto deste ano, o Ministério Público firmou acordo com o governo para garantir o cumprimento dos 12%. Ainda assim, a desconfiança permanece entre especialistas e usuários do sistema.

     O caso do governador reacende o debate sobre privilégios no acesso à saúde. Enquanto cidadãos aguardam meses por uma consulta de rotina, o mandatário estadual embarcou para outro estado em busca de atendimento imediato em uma estrutura privada de referência. Para críticos, o gesto simboliza o distanciamento entre a realidade enfrentada por quem depende do SUS e as condições usufruídas pela elite política. “Se o próprio governador prefere buscar atendimento fora, qual mensagem passa para quem espera no interior do Estado?”, questiona uma pessoa que atua na área da saúde ouvido pela reportagem.

     Após o procedimento em São Paulo, Leite viajou a Buenos Aires para participar da Feira Internacional de Turismo e deve retornar a Porto Alegre nesta segunda-feira (29). Enquanto isso, a fila da saúde no Rio Grande do Sul continua crescendo — e para milhares de gaúchos, a espera pela vez na consulta é mais dolorosa do que qualquer hérnia de disco.



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