"GURU ESPIRITUAL" natural de Garibaldi é indiciado por 13 crimes
A Polícia Civil concluiu, na quinta-feira (9), o inquérito que investigava o guru espiritual Adir Aliatti, de 70 anos, fundador da comunidade Osho Rachana, em Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Natural de Garibaldi, Aliatti — que chegou a concorrer ao cargo de vice-prefeito do município em 1982 pelo PT — foi indiciado por 13 crimes graves, entre eles tortura psicológica, charlatanismo, curandeirismo e violência sexual mediante fraude.
O líder, conhecido no meio espiritual como Prem Milan, é acusado de coagir seguidores a participar de rituais de “cura” que envolviam sexo em grupo, privação de sono e subjugação emocional, além de explorar financeiramente dezenas de vítimas. Conforme a Polícia, cerca de 40 pessoas foram lesadas, e o prejuízo total pode ultrapassar R$ 20 milhões.
De acordo com as investigações, Aliatti teria cobrado até R$ 12 mil por pacotes de imersão espiritual, além de mensalidades para morar na comunidade. O dinheiro, segundo a Polícia, era desviado para uso pessoal — bancando viagens de luxo e apostas online. Os seguidores, atraídos por promessas de “autoconhecimento e libertação emocional”, acabavam vivendo em condições degradantes, realizando trabalhos rurais e vendendo produtos nas ruas para sustentar a estrutura do grupo. “O que se apresentava como um caminho de iluminação, na verdade escondia práticas de abuso, coerção e enriquecimento ilícito”, disse a delegada Jeiselaure de Souza, responsável pela Operação Namastê, que investigou o caso.
Relatos colhidos pelo Ministério Público revelam que os encontros envolviam sexo livre “como forma de cura”, além de episódios de violência física e psicológica. Em um dos vídeos apreendidos, Aliatti aparece conversando sobre sexo com crianças, enquanto menores de idade relatam ter presenciado cenas explícitas em meio a bambuzais da comunidade. A investigação também aponta que ele e os filhos, André e Amanda Blos Aliatti, coordenavam as atividades e controlavam as finanças do grupo. Ambos foram igualmente indiciados pelos mesmos crimes.
Fundada em 2005, a Osho Rachana funcionava em um sítio de 42 hectares na localidade de Cantagalo, em Viamão. Inspirada nas ideias do mestre indiano Osho (1931–1990) — apelidado de “guru do sexo” —, a comunidade chegou a reunir mais de 100 seguidores, incluindo estrangeiros da Suíça, Espanha e Alemanha. Durante anos, o local funcionou como uma espécie de retiro alternativo, com cursos de meditação e “bioenergética”, atraindo profissionais liberais, terapeutas e estudantes. Com o tempo, porém, as denúncias se multiplicaram. Em 2022, ex-integrantes denunciaram à Justiça as práticas violentas e o ambiente de manipulação emocional dentro do grupo.
Adir Aliatti e os filhos chegaram a ser alvos de busca e apreensão em dezembro de 2024, durante a operação da Polícia Civil. Apesar dos indícios, a Justiça negou o pedido de prisão preventiva, determinando o uso de tornozeleiras eletrônicas, entrega de passaportes e proibição de contato com as vítimas. As defesas dos três investigados divulgaram notas afirmando que não tiveram acesso integral ao relatório policial e que confiarão na Justiça para que os fatos sejam esclarecidos.
🧾 Os 13 crimes atribuídos ao “Guru”
Associação criminosa
Tortura psicológica
Crime contra a economia popular (pirâmide financeira)
Redução à condição análoga à de escravo
Estelionato
Violência sexual mediante fraude
Satisfação de lascívia na presença de criança ou adolescente
Exposição de menor a vexame ou constrangimento
Falsificação e uso irregular de produtos terapêuticos
Charlatanismo
Curandeirismo
Impedimento de convivência familiar
Injúria racial
A Operação Namastê expôs uma das maiores estruturas de manipulação espiritual já investigadas no Rio Grande do Sul. O caso agora está nas mãos do Ministério Público, que decidirá se apresentará denúncia formal contra Aliatti e seus filhos. Enquanto isso, em Garibaldi, a revelação choca quem ainda lembrava de Adir Aliatti como figura pública e militante político local. Quatro décadas depois de tentar entrar na vida pública, o ex-candidato a vice-prefeito vê seu nome ligado a um dos maiores escândalos espirituais e criminais da história recente do estado.
Contrapontos
A defesa de Adir Aliatti divulgou nota:
"A defesa técnica de Adir Aliatti, realizada pelo advogado Rodrigo Oliveira de Camargo, refere que tomou conhecimento do encerramento das investigações, mas não teve acesso ao conteúdo do relatório da autoridade policial. Aliatti confia na justiça e não se furtará de prestar todos os esclarecimentos devidos nos foros e momentos adequados. Neste momento, aguardará o acesso ao indiciamento policial e às conclusões a serem adotadas pelo Ministério Público, a quem compete decidir pelo exercício, ou não, da ação penal, e reservar-se-á ao direito de manifestação nos autos do processo penal, onde finalmente serão asseguradas garantias como a imparcialidade, a ampla defesa, o contraditório e a presunção de inocência."
A defesa de Amanda Aliatti também se manifestou por meio de nota:
"As advogadas criminalistas Thais Constantin e Deise Dutra que representam Amanda Blos Aliatti, foram informadas pela imprensa sobre o indiciamento parcial da investigada. Até o presente momento, não foi possibilitado o acesso ao conteúdo do relatório investigativo, o que impede a defesa de formular qualquer manifestação. Com o devido conhecimento do documento formulado, disponibilizará então os seus apontamentos."
A defesa de André Aliatti também se manifestou em um comunicado:
"O advogado Guilherme Boes informa que teve acesso, no final da tarde desta quinta-feira, ao relatório parcial do inquérito policial conduzido pela autoridade responsável. A conclusão apresentada até o momento pela delegada responsável é parcial e, por essa razão, não permite à defesa o acesso integral à totalidade das conclusões do inquérito, tampouco às provas que foram reunidas durante a investigação. A defesa reitera seu compromisso com a transparência e o devido processo legal, e aguarda a disponibilização completa dos elementos probatórios para que possa exercer plenamente o direito à ampla defesa e ao contraditório. Novas informações serão prestadas assim que houver avanço na tramitação do procedimento investigativo."
