UCS defende Memorial Geisel e desafia Ministério Público Federal
A Universidade de Caxias do Sul (UCS) respondeu de forma contundente à recomendação do Ministério Público Federal (MPF), que sugeriu o fechamento do Memorial Ernesto Geisel, localizado no campus de Bento Gonçalves. O órgão apontou a possibilidade de que o acervo pudesse representar apologia ao período de repressão política vivido no Brasil. A universidade, no entanto, refutou a interpretação e defendeu que o objetivo do espaço é estritamente historiográfico, educativo e técnico-científico.
A manifestação, enviada em documento de nove páginas à Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, detalha que o memorial abriga documentos oficiais, fotografias, mapas e registros técnicos relacionados a transformações estruturais do país durante a década de 1970 — fase em que Geisel ocupou a presidência da República.
Segundo a UCS, o enfoque não é na figura política, mas em programas de impacto nacional, como Proálcool, desenvolvimento agropecuário no Cerrado via Prodecer, criação e ampliação da Embrapa, incentivos à tecnologia e projetos de energia e segurança alimentar. A universidade reforça que não há “elogios, discursos celebrativos ou elementos de culto à personalidade” no conteúdo exposto. A UCS argumentou ainda que a recomendação do MPF toca em princípios constitucionais sensíveis, como a autonomia universitária e a liberdade acadêmica, garantidas pelo artigo 207 da Constituição. Para a instituição, preservar acervos históricos faz parte da função social e científica da universidade.
No texto, a universidade relembra sua trajetória de ações voltadas aos direitos humanos, como projetos de acolhimento a refugiados, observatórios sociais e grupos de pesquisa reconhecidos nacional e internacionalmente, destacando que tais práticas não se compatibilizam com qualquer forma de enaltecimento à repressão.
O acervo foi inicialmente instalado na Casa Geisel, em Bento Gonçalves, como homenagem ao único presidente da República nascido na cidade. Porém, problemas estruturais do imóvel — incluindo umidade e risco de deterioração — motivaram a transferência para o campus universitário. A UCS afirma que manter o memorial ativo representa o atendimento a interesses coletivos da comunidade, que considera relevante preservar elementos da memória local. A instituição inclusive se colocou à disposição para discutir uma possível realocação do acervo para outro espaço público, desde que sejam garantidas condições adequadas de preservação.
Na conclusão do documento, a universidade reforçou que segue alinhada ao Estado Democrático de Direito, à pluralidade de ideias e ao exercício democrático da memória. O memorial, afirma, continuará cumprindo papel de pesquisa, reflexão crítica e educação histórica, sem censura ou revisionismo. “Compreender o passado não significa defendê-lo”, destacou a instituição.
