Safra de pinhão despenca com queda da produção em 2026
A safra de pinhão na Serra Gaúcha começou sob alerta e com números que preocupam produtores e especialistas. Tradicional fonte de renda extra para famílias da região, a colheita deste ano apresenta queda significativa em diversas cidades, com estimativas que variam entre 12,5% e 60% de redução. Mesmo em municípios onde a expectativa era de estabilidade, a percepção entre os coletores é de escassez logo no primeiro mês de colheita.
Autorizada por lei a partir de 1º de abril, a safra de 2026 não deve ultrapassar as cerca de 600 toneladas registradas no ano passado na Serra, conforme projeções da Emater. A região, que inclui a Região das Hortênsias e os Campos de Cima da Serra, segue como principal produtora do Estado, mas enfrenta um cenário atípico que chama atenção tanto no campo quanto na pesquisa científica.
A explicação para a queda está ligada a um fator que não é imediato: o clima. O ciclo de formação da pinha leva, em média, três anos, o que significa que as sementes colhidas agora começaram a se desenvolver em um período marcado por eventos climáticos extremos, como as chuvas intensas registradas em 2024 no Rio Grande do Sul. Essas condições impactaram diretamente a formação das pinhas e, consequentemente, a produção atual.
O fenômeno vem sendo estudado há quase duas décadas pelo biólogo Glauco Schüssler, analista do Instituto do Meio Ambiente da PUCRS. Em uma propriedade no interior de São Francisco de Paula, o pesquisador monitora 90 araucárias e acompanha de forma detalhada os ciclos de produção, cruzando dados climáticos com características das árvores e do solo. Ao longo do estudo, Schüssler identificou três padrões distintos de produção: um ciclo com alternância, outro com aumento e um intermediário. Segundo ele, além do clima, fatores como histórico de uso do solo, nutrientes, genética das árvores e até intervenções humanas influenciam diretamente na produtividade.
A análise, no entanto, é complexa justamente pela longa duração do ciclo da planta, que faz com que eventos passados continuem refletindo anos depois. Mesmo quando as condições recentes parecem favoráveis, como ocorreu em 2025, os impactos de anos anteriores ainda determinam o resultado da safra. Desde o início da pesquisa, apenas dois períodos registraram quedas mais acentuadas: 2013 e o atual cenário de 2026. A expectativa de produção caiu de cerca de 120 toneladas para apenas 40 neste ano.
