Agricultura

Frio fora de época, ventos e “cachos invertidos” assustam produtores de Uva

Fenômenos climáticos na primavera colocam em dúvida a produção nos vinhedos
05/11/2025 Em Bento Gonçalves
Portal Adesso - Foto: Divulgação

     O que prometia ser uma das safras mais promissoras dos últimos anos agora está cercado de incertezas. A produção de uva 2026 no Rio Grande do Sul — responsável por mais de 90% do vinho brasileiro — pode estar em risco devido às condições climáticas irregulares que vêm preocupando produtores e especialistas. A Emater/RS-Ascar decidiu adiar qualquer estimativa oficial de safra até janeiro, alegando que ainda há muitos fatores imprevisíveis que podem interferir durante o desenvolvimento dos cachos. A indefinição aumenta a apreensão de viticultores em regiões como Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Veranópolis e Vacaria, que vivem dias de atenção redobrada.

     “Apesar da excelente safra de 2025, tanto em quantidade quanto em qualidade, os vinhedos vêm enfrentando estresse há vários anos”, explica o extensionista rural Thompsson Didoné, da Emater. Segundo ele, nos últimos cinco anos, as plantações sofreram tanto com estiagens severas quanto com o excesso de chuva e encharcamento em 2024, o que afetou o sistema radicular das plantas. O inverno deste ano, porém, havia trazido esperança — com ótimas horas de frio e ausência de geadas tardias, fatores ideais para um bom florescimento. “Em Vacaria foram 770 horas abaixo de 7,2°C, em Caxias do Sul 654 horas e em Veranópolis 399. O frio foi contínuo e de ótima qualidade, sem picos de calor em junho e julho”, destacou Didoné. Mas a natureza voltou a surpreender — e não de forma positiva.

     O engenheiro agrônomo Enio Ângelo Todeschini, especialista em viticultura, afirma que a primavera vem trazendo condições climáticas adversas e que podem comprometer a frutificação. “As temperaturas noturnas e matinais estão muito abaixo da média, o que tem retardado o desenvolvimento vegetal. Além disso, o excesso de dias nublados reduz a fotossíntese das plantas, e o vento constante vem estressando os parreirais”, explicou. Para piorar, surgiu um fenômeno fisiológico que vem tirando o sono dos produtores: o “desavinho” — um distúrbio que reduz o número de bagas nos cachos e até inverte sua posição, deixando-os virados para cima.

     “É algo que preocupa. O desavinho faz com que muitos cachos se transformem em gavinhas, comprometendo a produtividade”, alerta Todeschini. Enquanto o cenário não se define, o setor vitivinícola do Rio Grande do Sul vive um misto de esperança e apreensão. A expectativa é que as condições de novembro e dezembro determinem se o ano de 2026 será de colheita farta — ou de mais um capítulo de desafios para quem vive da uva.




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