Saúde

RS vive surto alarmante de Câncer e já registra mais mortes que infarto

Em apenas oito anos, número de municípios onde o câncer é a principal causa de morte subiu 30%
07/11/2025
Portal Adesso

     O Sul do Brasil se tornou o epicentro de uma crise silenciosa e assustadora. O câncer, que por décadas esteve atrás das doenças cardiovasculares no ranking das principais causas de morte, já ultrapassou o infarto e o AVC em 670 cidades brasileiras — e quase metade delas está concentrada no Sul. O dado foi divulgado pelo Observatório de Oncologia durante o Fórum Big Data em Oncologia, realizado na última quarta-feira (5) no Rio de Janeiro. O estudo revela que o número de municípios onde o câncer lidera as mortes cresceu 30% entre 2015 e 2023. Se nada mudar, a doença deve se tornar, até 2029, a principal causa de morte no país.

     O Rio Grande do Sul é o estado mais afetado: 168 cidades já têm o câncer como principal causa de morte, o que representa 34% do total estadual. Na região, 22% de todos os óbitos são provocados por tumores — um índice muito acima da média nacional (17%). De acordo com a pesquisadora Nina Melo, coautora do estudo, o cenário gaúcho é resultado de um conjunto de fatores.“O Sul tem a maior expectativa de vida do país e uma rede de diagnóstico mais estruturada, o que aumenta a detecção. Mas há também fatores ambientais e genéticos — como a alta exposição a agrotóxicos e a prevalência de câncer de pele”, explica.

     O oncologista Abraão Dornellas, do Hospital Albert Einstein, alerta: “O câncer está avançando rápido e de forma desigual. Em algumas regiões ele é diagnosticado e tratado; em outras, mata sem sequer ser identificado.” O levantamento analisou 26 anos de dados do Ministério da Saúde e constatou que as mortes por câncer cresceram 120% desde 1998 — mais que o dobro do aumento das doenças cardiovasculares (51%). “Estamos vivendo uma transição epidemiológica perigosa”, afirma Dornellas. “Com mais pessoas envelhecendo e vivendo mais tempo, o câncer ganha peso nas estatísticas. Mas o país não está preparado para essa virada.”

     Um dos dados mais preocupantes é que metade dos municípios atingidos tem menos de 25 mil habitantes. Nessas regiões, onde moram 9,2 milhões de brasileiros, o câncer avança sem estrutura para diagnóstico ou tratamento. “O câncer deixou de ser um problema das capitais. Ele chegou aos interiores”, diz Nina Melo. “Muitos pacientes precisam viajar horas para conseguir uma mamografia ou biópsia. Quando chegam ao hospital, o tumor já está avançado.”

     Segundo o estudo, 77% das mortes por câncer ocorrem em pessoas acima dos 60 anos, e 56% são entre homens. Os tipos mais letais continuam sendo pulmão, mama e próstata. Mesmo após a Lei dos 60 Dias, que obriga o início do tratamento em até dois meses após o diagnóstico, a espera ainda é longa. “O SUS tem estrutura para tratar, mas o gargalo está no diagnóstico e na demora. Quando o tratamento começa, o tumor já se espalhou e a chance de cura cai drasticamente”, alerta a pesquisadora.

     Os especialistas são categóricos: sem investimento em prevenção e diagnóstico precoce, o sistema de saúde pode colapsar até o fim da década. “Tratar câncer é caro e complexo. Precisamos de rastreamento estruturado, equipes regionais e políticas contínuas. O Brasil precisa agir agora”, reforça Dornellas.



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