Polícia Federal suspeita que familiares de ex-secretários do MDB integram grupo criminoso que superfatura contratos
A Polícia Federal - PF, avançou de forma decisiva na Operação Lamaçal e passou a investigar a suspeita de que ex-secretários e familiares de ex-secretários ligados ao MDB de Garibaldi integrem um grupo criminoso estruturado para fraudar licitações e superfaturar contratos públicos no Vale do Taquari e na Serra Gaúcha.
Segundo a PF, empresas formalmente distintas estariam, na prática, sob o controle do mesmo grupo, com sócios ocultos operando nos bastidores. No centro da investigação estão as empresas Arki Serviços e Plati, esta última com sede em Garibaldi, cujos contratos milionários com o poder público de Lajeado passaram a levantar suspeitas de sobrepreço, direcionamento e conluio com agentes públicos.
A segunda fase da operação teve como gatilho um contrato firmado em 2020, envolvendo a empresa Arki, que recebeu parecer do Tribunal de Contas do Estado apontando sobrepreço estimado em R$ 3 milhões. A partir desse achado, os investigadores identificaram outros contratos com indícios semelhantes, reforçando a tese de atuação sistemática. “Verificou-se a existência de outros contratos diretamente relacionados às mesmas empresas”, afirmou o delegado Marconi Silva, responsável pelo inquérito.
A nova etapa da Operação Lamaçal resultou na prisão temporária do ex-prefeito de Lajeado, Marcelo Caumo (União Brasil), além da empresária Lorena Mercalli, proprietária da Arki Serviços. Ela foi encaminhada a ala feminina do Presídio Estadual de Lajeado, enquanto Caumo foi levado ao Presídio Estadual de Canoas. Também foram afastadas do serviço público a atual secretária de Serviços Urbanos de Lajeado, Elisete Mayer, ex-chefe de gabinete de Caumo, e a vereadora do município de Encantado Joanate Cardoso (PSDB).
Na Serra, mandados de busca e apreensão ainda alcançaram residências de ex-secretários municipais em Garibaldi e familiares ligados à gestão do prefeito Antônio Cettolin (MDB). De acordo com o delegado Marconi Silva, as prisões temporárias — inicialmente de cinco dias, prorrogáveis — foram solicitadas para preservar provas e evitar combinação de versões. “Nas oitivas, os investigados afirmaram não manter contato frequente entre si. No entanto, a análise dos dados aponta relacionamento atual e recorrente, o que representa uma contradição relevante para o inquérito”, explicou.
A investigação sustenta que Arki e Plati fariam parte de um mesmo conglomerado informal, apesar de estarem registradas em nomes distintos. A sede da Plati, em Garibaldi, está em nome da esposa do ex-secretário municipal de Segurança e Mobilidade Urbana, Carlo Mosna, enquanto a empresa também atuaria em Novo Hamburgo com familiares do ex-chefe de gabinete de Cettolin, Micael Carissimi.
A empresa Arki atua no município de Lajeado faz quase duas décadas. E o entrelaço nebuloso com a Operação Lamaçal não é a primeira manchete negativa relacionada à terceirizada com sede em Muçum e cuja proprietária Lorena Mercalli – presa de forma preventiva ontem – reside em Encantado.
O inquérito teve origem em um contrato emergencial ligado às enchentes de setembro de 2023, com recursos do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS), que ultrapassava R$ 5 milhões. Nesse caso, a PF e a CGU identificaram sobrepreço de cerca de R$ 1,5 milhão.
A apuração avançou para outros dois contratos: um firmado com a Arki, em 2020, com sobrepreço estimado em R$ 3 milhões e outro envolvendo uma empresa de Salvador do Sul, com indício de sobrepreço de R$ 600 mil. Somados, os contratos analisados chegam a mais de R$ 120 milhões, valor que motivou o pedido de bloqueio judicial de bens, inclusive nas contas do ex-prefeito Marcelo Caumo.“Os indícios são veementes quanto ao direcionamento e ao modo de agir do grupo criminoso, composto por empresários e agentes públicos”, afirmou o delegado.
Ele ainda disse acreditar, que ex-prefeito de Lajeado e outras 15 pessoas integram esquema para superfaturar contratos. O delegado pretende antecipar as oitivas dos investigados nos próximos dias. “Irei escutá-los para verificar a necessidade de manter ou não os dois investigados presos.”
A PF sustenta que a segunda fase está ligada ao que foi extraído da perícia nos aparelhos recolhidos na primeira operação, em novembro do ano passado, em especial pela quebra do sigilo telefônico.“Embora não tenhamos analisado todo o conteúdo ainda, o que já foi processado trouxe elementos suficientes para deflagrar esta nova fase da operação”, concluiu.
