Polícia Federal entra no Caso Languiru e convoca ex-coordenador para depor
A crise que levou a Cooperativa Languiru de Teutônia a um colapso financeiro bilionário acaba de ganhar um novo capítulo envolvendo investigação policial e atuação do Ministério Público. O presidente liquidante da cooperativa, Paulo Birck, confirmou que um ex-coordenador do Conselho Fiscal foi intimado para prestar depoimento à Polícia Federal, em Santa Cruz do Sul, dentro das apurações relacionadas à situação financeira da empresa.
A convocação ocorre após a entrega de uma auditoria investigativa produzida pela atual gestão da cooperativa. Segundo Birck, o levantamento foi contratado logo após a troca de comando da Languiru, em maio de 2023, com o objetivo de identificar as causas da crise financeira e apontar possíveis responsabilidades. “Foi feita uma auditoria investigativa justamente para entender o que aconteceu e conseguir responsabilizar, no futuro, quem tiver que ser responsabilizado”, afirmou o presidente liquidante. De acordo com ele, todo o material produzido foi encaminhado inicialmente ao Ministério Público e, posteriormente, remetido ao Gaeco, grupo especializado no combate ao crime organizado e fraudes financeiras. Birck revelou ainda que os primeiros movimentos concretos das investigações já começaram a ocorrer oficialmente.
O presidente liquidante também destacou que a direção atual da cooperativa possui limitações para aprofundar determinadas linhas de investigação sem apoio das autoridades competentes. Segundo ele, medidas como quebra de sigilo bancário e telefônico dependem exclusivamente de autorização judicial e atuação dos órgãos responsáveis. “Eu não tenho poder de quebrar um sigilo bancário, um sigilo telefônico”, afirmou.
A dimensão da crise financeira da cooperativa, segundo Birck, surpreendeu até mesmo os integrantes da nova gestão. Conforme relatado, o passivo da Languiru ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão, cenário que colocou em risco toda a operação da empresa. Segundo ele, quando a atual administração assumiu o controle da cooperativa, a necessidade de caixa era imediata e gigantesca. A empresa precisava gerar aproximadamente R$ 2 milhões por dia apenas para manter as operações de aves e suínos funcionando no campo.
Mesmo diante das investigações e da gravidade da situação financeira, a direção afirma que o foco principal continua sendo manter a cooperativa em funcionamento. Birck destacou que a continuidade das atividades é considerada estratégica para preservar empregos, pagamentos e evitar impacto direto sobre os associados. “A Languiru tem que ficar viva, ativa, porque enquanto ela estiver ativa, o CNPJ é que tem a dívida, não é o associado”, afirmou. Atualmente, segundo a cooperativa, a operação mantém faturamento mensal próximo de R$ 50 milhões e segue realizando pagamentos a produtores, funcionários e fornecedores. Enquanto isso, as investigações sobre o maior colapso financeiro da história recente do cooperativismo gaúcho avançam nos bastidores e começam a atingir antigos integrantes da estrutura administrativa da empresa.
A Languiru
A Cooperativa Languiru é uma das mais tradicionais cooperativas agroindustriais do Rio Grande do Sul e teve origem no município de Teutônia, no Vale do Taquari. Fundada em 1955 por produtores rurais da região, a cooperativa nasceu com o objetivo de fortalecer a produção agrícola e leiteira por meio do cooperativismo. Ao longo das décadas, a Languiru expandiu suas atividades e passou a atuar em diversos segmentos do agronegócio e da indústria alimentícia. A cooperativa chegou a se tornar uma das maiores do Estado, com operações ligadas à produção de leite, aves, suínos, rações, frigoríficos, supermercados, postos de combustíveis e lojas agropecuárias.
A estrutura da empresa se espalhou por diferentes cidades gaúchas, principalmente no Vale do Taquari, Serra e outras regiões do interior do Rio Grande do Sul. Além da sede em Teutônia, a cooperativa manteve unidades e operações em municípios como Westfália, Poço das Antas, Estrela, Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul e regiões próximas. A Languiru também se tornou conhecida pelo forte vínculo com os produtores associados. O modelo cooperativista permitia que agricultores e pecuaristas entregassem sua produção para industrialização e comercialização por meio da cooperativa.
Nos últimos anos, porém, a empresa entrou em uma grave crise financeira. Em 2023, a cooperativa revelou um endividamento superior a R$ 1 bilhão, enfrentando dificuldades para manter operações, pagar fornecedores e reorganizar a estrutura administrativa. A crise gerou fechamento de unidades, venda de ativos e investigações internas sobre a gestão anterior.
Atualmente, a cooperativa segue em processo de recuperação operacional e financeira sob comando de uma gestão liquidante, enquanto órgãos de investigação analisam as causas do colapso econômico que atingiu a empresa.
