Camionete Saveiro é promovida a "Paciente de Oficina" sem ter pedido Socorro
Há cidades que possuem planejamento urbano. Há cidades que possuem desenvolvimento econômico. Há cidades que possuem tecnologia.
E há Carlos Barbosa, onde uma Saveiro quebra em frente a um açougue e outra Saveiro acaba sequestrada de um açude por engano.
A história é tão inacreditável que, se fosse apresentada como roteiro para um filme, provavelmente seria rejeitada por excesso de exagero. Tudo começou quando um morador teve a infeliz experiência de descobrir que sua Saveiro havia decidido aderir ao movimento sindical dos veículos e simplesmente parou de trabalhar. A caminhonete ficou estacionada em frente a um açougue na comunidade de Arcoverde.
O proprietário então ligou para um serviço de guincho. — Minha Saveiro está parada em frente ao açougue. Informação simples. Objetiva, Clara e Cristalina. Mais fácil de entender do que receita de Miojo.
Mas, em algum lugar entre o telefone do cliente e o cérebro do guincheiro, ocorreu um fenômeno que os especialistas estão chamando de "pane acústica operacional avançada". Onde foi dito: AÇOUGUE Foi entendido: AÇUDE
E foi aí que Deus largou o café para assistir.
Porque, por uma coincidência tão absurda que chega a ser ofensiva, existia outra Saveiro parada perto de um açude na comunidade de Alpinada. Sim. Outra Saveiro Parada e próximo de um açude. No mesmo dia. No mesmo município.
Faltou apenas as duas terem a mesma placa para completar o bingo da improbabilidade.
Ao encontrar a caminhonete próxima ao açude, o guincheiro realizou uma investigação minuciosa que durou aproximadamente três segundos. Olhou. Coçou a cabeça. Pensou: — Deve ser essa. E imediatamente colocou o veículo sobre a plataforma.
Não conferiu placa. Não conferiu proprietário. Não conferiu nada. Aparentemente, o critério utilizado foi:
"Se tem quatro rodas e parece uma Saveiro, então é a Saveiro."
Enquanto isso, a verdadeira caminhonete continuava em Arcoverde. Parada. Sozinha. Abandonada. Refletindo sobre as escolhas da humanidade.
Horas depois, o mecânico estranhou a situação. Algo não parecia certo.Talvez porque o veículo chegara sem dono. Ou porque ninguém sabia exatamente por que ele estava ali. Ou porque o universo inteiro já estava emitindo sinais de alerta.
Então ele resolveu telefonar. — Tua Saveiro já chegou. Silêncio. — Como assim chegou? — Chegou aqui na oficina. — Mas ela está em Arcoverde. — Não. Está aqui. — Não. Está lá. — Não. Está aqui. — Não. Está lá.
Relatos indicam que, naquele momento, duas pessoas passaram a duvidar da própria sanidade. O mecânico. E o proprietário.
A terceira pessoa foi a Saveiro correta, que seguia imóvel em frente ao açougue tentando processar o abandono.
Ao entender o que havia acontecido, o proprietário disparou a frase que imediatamente entrou para a história oral da Serra Gaúcha: — PORCO DIO! ARCOVERDE SÓ TEM UM AÇOUGUE! Uma observação justa. Localizar o único açougue de Arcoverde não deveria ser mais difícil do que localizar o Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Mas o dano já estava feito.
A essa altura, outra família estava vivendo momentos dramáticos. O proprietário da Saveiro do açude. Aquele cidadão que havia estacionado seu veículo tranquilamente e, horas depois, descobriu que sua caminhonete havia simplesmente evaporado. Imagine a cena.
Você estaciona. Vai fazer suas coisas. Volta. E o carro desapareceu. Sem testemunhas. Sem explicação. Sem lógica. Sem motivo. Nem ladrão entenderia o plano.
Segundo relatos, a polícia chegou a ser avisada sobre o desaparecimento. E aqui a história atinge um nível de perfeição impossível de ser roteirizado.
Enquanto procuravam a Saveiro desaparecida......a Saveiro desaparecida já estava aguardando atendimento mecânico. Não havia sido roubada. Não havia sido furtada. Não havia sido clonada.
Ela apenas havia sido promovida involuntariamente a paciente de oficina.
Fontes relatam que a caminhonete foi a primeira vítima conhecida de um sequestro motivado por erro de audição. Nas horas seguintes, a história atravessou Carlos Barbosa numa velocidade superior à de qualquer comunicado oficial da prefeitura.
Quando chegou à noite, praticamente toda a cidade já sabia de três coisas: Existia uma Saveiro em Arcoverde. Existia uma Saveiro em Alpinada. E existia um guincheiro que agora provavelmente jamais esquecerá a diferença entre açougue e açude.
O caso ganhou status de patrimônio cultural instantâneo. Há relatos de que uma música foi composta. Outros defendem um monumento.
Há inclusive quem sugira instalar uma placa turística no local com os dizeres:
"Aqui repousou a Saveiro errada que foi para a oficina certa."

