Após anos de promessas, Vale dos Vinhedos perde campus da UFRGS para Caxias
A espera terminou, mas não da forma que os municípios do Vale dos Vinhedos esperavam. Após quase dez anos de mobilização, Garibaldi, Bento Gonçalves e Carlos Barbosa perderam oficialmente a disputa pelo campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).O Conselho Universitário da instituição (Consun) aprovou, na manhã desta sexta-feira (31), a implantação da unidade em Caxias do Sul, com previsão de início das atividades em 2026.
A decisão encerra uma longa negociação política e técnica que começou em 2015, quando prefeitos da Amesne (Associação dos Municípios da Encosta Superior do Nordeste) decidiram, em assembleia realizada em Nova Pádua, apoiar a instalação do campus em uma área da Embrapa Uva e Vinho, entre os bairros Borghetto e Garibaldina — território que liga Bento Gonçalves a Garibaldi.A proposta, na época, tinha como objetivo unir o potencial vitivinícola e agroindustrial da região à pesquisa e inovação científica.
Em 2019, o projeto chegou a mudar de rumo: a Prefeitura de Farroupilha assinou um protocolo de intenções com a UFRGS, prometendo a construção do campus em até 30 meses, no bairro Cinquentenário. Seis anos depois, nenhuma obra saiu do papel — e o anúncio desta sexta confirma que Caxias do Sul venceu a disputa pela instalação definitiva da universidade federal na Serra Gaúcha.
Campus será instalado em prédio no bairro São Pelegrino
A reunião do Conselho Universitário, realizada em Porto Alegre, aprovou por 66 votos a 11 a criação do campus em Caxias e definiu como sede o antigo prédio de cursos de pós-graduação do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), localizado no cruzamento das ruas Os Dezoito do Forte e Moreira César, no bairro São Pelegrino. O Ministério da Educação (MEC) já destinou R$ 60 milhões para a compra do imóvel, obras e equipamentos, e se comprometeu a enviar mais recursos em 2025.
A previsão é de que o campus ofereça oito cursos de graduação: Administração, Engenharia Agrícola, Engenharia de Produção Mecânica, Engenharia de Materiais e Manufatura, Ciência de Dados, Pedagogia, Psicologia e Artes Cênicas. Segundo a reitora Márcia Barbosa, as atividades devem começar no primeiro semestre de 2026, com o primeiro vestibular voltado prioritariamente a estudantes da região. — Será um campus voltado à inovação e conectado com as demandas das empresas locais, afirmou.
Frustração no Vale dos Vinhedos
Entre prefeitos e lideranças da Amesne, a decisão foi recebida com decepção e sentimento de perda. A instalação do campus no Vale dos Vinhedos era vista como uma conquista estratégica, por estar em uma região com forte identidade cultural italiana, economia ligada à vitivinicultura e tradição em pesquisa agroindustrial. Além disso, a presença da Embrapa Uva e Vinho no local daria suporte técnico e científico ao projeto. Apesar dos esforços e das articulações políticas regionais, a proposta acabou superada pelo peso político e pela infraestrutura de Caxias do Sul, que já abriga universidades e estrutura urbana consolidada.
Lideranças da Amesne afirmam que o episódio reforça a necessidade de novas estratégias conjuntas para atrair investimentos federais e descentralizar o ensino superior público.
A reunião que selou o futuro do campus contou com a presença de autoridades e movimentos estudantis. Estiveram no encontro o presidente da Assembleia Legislativa, Pepe Vargas (PT), a deputada federal Denise Pessôa (PT) e a ex-vice-prefeita de Caxias, Marisa Formolo. Do lado de fora, alunos da Escola Família Agrícola da Serra Gaúcha (EFASERRA) e representantes da UNE exibiram cartazes pedindo a aprovação do projeto.
Com a decisão, Caxias do Sul se torna o primeiro município fora de Porto Alegre a sediar um campus da UFRGS, ampliando a presença da instituição mais tradicional do Estado e deixando o Vale dos Vinhedos de fora de um sonho que começou há quase uma década.
