Educação

Famílias denunciam cortes no transporte escolar e abandono de crianças em Bento

Prefeitura corta vagas dias antes do início das aulas e mantém veículos rodando quase vazios
25/02/2026 Em Bento Gonçalves
Com informações do NB Notícias - Foto: Jonathan Zanotto/Especial do NB

     A volta às aulas em Bento Gonçalves começou com indignação, revolta e sensação de abandono para dezenas de famílias. Em meio à falta de vagas em creches e ao déficit de monitores, um novo problema veio à tona: o corte repentino de vagas no transporte escolar municipal, comunicado a pais e mães apenas dois dias antes do início do ano letivo.

     O cenário que se repete em bairros da Zona Norte da cidade beira o absurdo. Vans escolares circulam com poucos alunos, enquanto crianças são obrigadas a ir a pé até a escola — muitas vezes acompanhadas por responsáveis que precisam reorganizar toda a rotina de trabalho para dar conta do trajeto. Relatos apontam desorganização, falta de sensibilidade e decisões tomadas exclusivamente no papel, sem considerar a realidade das ruas. Para as famílias, o sentimento é de que a burocracia venceu o bom senso.

     A moradora do bairro São João, Sirlene Pauletto Fernandes, de 36 anos, vive uma situação que resume o problema. Após esforço da direção da escola para manter suas duas filhas, de 6 e 8 anos, estudando juntas, a Secretaria Municipal de Educação decidiu que apenas a mais velha teria direito ao transporte escolar. A mais nova, que faz o mesmo trajeto e estuda na mesma instituição, teve a vaga negada. O resultado é um pai forçado a reorganizar completamente seus horários de trabalho, enquanto a van passa diariamente pela rota com assentos sobrando.

     Situação ainda mais delicada enfrenta Andréa Jenifer Dias de Oliveira, de 25 anos, moradora do bairro Nossa Senhora da Saúde. Seu filho de 7 anos utilizava o transporte no ano passado, mas teve o direito retirado às vésperas do início das aulas. O motivo alegado: a distância entre a casa e a escola é de 900 metros — abaixo do novo critério imposto pela prefeitura. Agora, Andréa percorre o caminho a pé, carregando uma bebê de apenas um mês no colo, enquanto observa a van escolar passar quase vazia. Ao questionar a situação, ouviu da Secretaria que o motorista “não deve questionar listas, apenas dirigir”. Segundo monitoras do serviço, o pagamento do transporte é feito por quilômetro rodado, o que levanta uma pergunta incômoda: qual a lógica de excluir crianças se o veículo já está sendo pago e circulando normalmente?

     Procurada, a Prefeitura de Bento Gonçalves, por meio da Secretaria Municipal de Educação, afirmou que não houve corte, mas sim uma “otimização da política pública”, baseada no Decreto nº 12.950, de setembro de 2025. Segundo a administração, para o ano letivo de 2026 foram analisados 1.746 pedidos de transporte escolar, com 1.644 deferidos. Os 102 indeferimentos ocorreram porque os alunos não atingiram a distância mínima exigida: 1.500 metros na zona urbana e 2 quilômetros na zona rural, ou estariam fora do zoneamento escolar.

     Sobre o caso das irmãs do bairro São João, a prefeitura negou tratamento desigual e afirmou que não há registros semelhantes, exceto em situações específicas como a EMTI Universitário, onde o transporte atende apenas parte dos alunos. A gestão também destacou que as famílias assinam um Termo de Responsabilidade no ato da matrícula, declarando ciência prévia das regras.

     Apesar das justificativas técnicas, a realidade exposta pelas famílias revela uma contradição gritante: veículos pagos com dinheiro público circulando vazios, enquanto crianças caminham longas distâncias e responsáveis enfrentam jornadas exaustivas para garantir o direito básico à educação.



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