Governo Leite aprovou mais de 9,4 mil estudantes mesmo eles reprovando em até quatro disciplinas
Uma mudança silenciosa na educação pública do Rio Grande do Sul está provocando forte debate entre especialistas, professores e gestores. Em 2025, mais de 9,4 mil estudantes da rede estadual avançaram de ano mesmo tendo sido reprovados em até quatro disciplinas — efeito direto da chamada “progressão parcial”, política adotada pelo governo Eduardo Leite para reduzir a evasão escolar.
Reportagem publicada pelo Jornal Zero Hora nesta quarta-feira (01), mostrou dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), e indicam que 9.472 alunos foram beneficiados no primeiro ano de aplicação da regra, que já está mantida para 2026. Na prática, esses estudantes são considerados aprovados, mas precisam recuperar os conteúdos pendentes ao longo do ano seguinte.
A medida teve impacto imediato nos números da educação: sem a progressão parcial, a taxa de reprovação na rede estadual teria sido de 6,7%. Com a nova política, caiu para 5,2%. Segundo a Secretaria Estadual da Educação (Seduc), o objetivo é evitar que estudantes abandonem a escola por causa da repetência. A secretária Raquel Teixeira defende que o modelo corrige distorções históricas do sistema. — A maioria dos alunos reprova em poucas disciplinas. Não faz sentido repetir um ano inteiro por causa disso, especialmente entre jovens vulneráveis que muitas vezes acabam deixando a escola — afirma.
No Ensino Médio, onde a evasão é mais crítica, o impacto foi ainda mais evidente. Mais de 5,4 mil estudantes avançaram graças à medida, reduzindo a taxa de reprovação de 10,1% para 7,8%. Já no Ensino Fundamental, cerca de 4 mil alunos foram beneficiados, com a taxa caindo para 3,6%. Apesar dos números positivos, a política não é consenso.
Parte da comunidade escolar critica o modelo, argumentando que ele pode desestimular o esforço dos alunos e comprometer a qualidade do aprendizado. Professores também relatam, nos bastidores, preocupação com possíveis pressões por aprovação — algo que o governo nega. — Não existe orientação para aprovar sem aprendizado. Se isso ocorreu, precisa ser investigado — rebate a secretária.
Especialistas alertam que a redução nas reprovações não significa, necessariamente, melhora no ensino. Para o diretor do Centro de Inovação e Conhecimento para a Excelência em Políticas Públicas (CIEPP), Jhonatan Almada, os indicadores precisam ser analisados com cautela. — Há uma mudança no fluxo escolar. O aluno passa de ano, mas isso não garante que ele aprendeu o conteúdo. O essencial é acompanhar se haverá recuperação real dessas defasagens — explica.
A progressão parcial não é exclusiva do Rio Grande do Sul. Estados como Paraíba e Rio de Janeiro permitem avanço mesmo com até seis disciplinas reprovadas, enquanto Goiás e o Distrito Federal adotam limites mais rígidos. No modelo gaúcho, o estudante pode avançar com até quatro reprovações, desde que distribuídas em no máximo duas áreas do conhecimento. Além disso, ele é submetido a um plano individual de recuperação, com avaliações e acompanhamento ao longo do ano.
A política já alcança uma parcela significativa da rede: uma em cada três escolas estaduais utilizou o mecanismo em 2025. Ao todo, 815 instituições aplicaram a progressão parcial, enquanto a reprovação ainda ocorreu em 71% das escolas. Outro ponto que chama atenção é o impacto nos indicadores educacionais. Como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) considera a taxa de aprovação, o aumento no número de alunos que avançam de ano pode elevar a nota do Estado.
Ainda assim, o histórico recente acende o alerta. Em 2024, a taxa de reprovação no Ensino Médio da rede estadual gaúcha foi de 11,1% — o dobro da média nacional, que ficou em 5,5%.
Diante desse cenário, a progressão parcial surge como uma aposta ousada: reduzir a evasão e melhorar o fluxo escolar sem comprometer a aprendizagem. O resultado definitivo, no entanto, ainda dependerá de um fator crucial — se os alunos, de fato, conseguirão recuperar o conteúdo perdido.
