Polícia

Júri reconhece feminicídio, mas afasta intenção de matar em caso que chocou Garibaldi

Decisão do conselho de sentença tira o crime da alçada do júri e transfere ao juiz. Promotoria aponta contradição
20/01/2026 Em Garibaldi
Portal Adesso Foto: Reprodução

     O julgamento do caso que vitimou Eleci Faleiro Rommel, em Garibaldi, terminou na noite desta terça-feira com uma decisão que gerou surpresa e controvérsia. Por maioria dos votos, o Conselho de Sentença reconheceu que houve feminicídio, mas entendeu que não existiu dolo, ou seja, intenção de matar por parte do réu. Com esse entendimento, o júri popular deixou de enquadrar o caso como crime doloso contra a vida, o que muda completamente o rumo do processo. Diante disso, cabe agora ao juiz Antônio Pereira Rosa a responsabilidade de fixar a pena, tarefa que normalmente seria resultado direto da decisão dos jurados.

     A sentença foi proferida por volta das 21h30, encerrando uma sessão acompanhada de grande expectativa. Segundo a promotora de Justiça Lívia Colombo Liberato Braga, o resultado apresenta uma possível contradição jurídica. Isso porque, embora os jurados tenham reconhecido o contexto de feminicídio, acolheram a tese da defesa de que o réu não agiu com intenção de provocar a morte da vítima. De acordo com especialistas em direito penal, quando o dolo é afastado, o crime pode ser reclassificado para uma tipificação menos grave, como homicídio sem intenção, o que reduz significativamente a pena prevista em lei. Ainda assim, o reconhecimento do feminicídio mantém o peso simbólico e jurídico da violência de gênero envolvida no caso.

     A promotoria já sinalizou que avalia recorrer da decisão ao Tribunal de Justiça. O recurso pode questionar a coerência do veredito e, em determinados cenários, resultar até mesmo na realização de um novo júri popular, caso seja entendido que a decisão contrariou as provas dos autos. Outro ponto que chama a atenção é a situação do réu. A decisão do júri não implica soltura automática. O juiz poderá manter a prisão preventiva, conceder liberdade provisória ou aplicar medidas cautelares alternativas, conforme a análise dos requisitos legais, como risco à ordem pública ou possibilidade de fuga.

     O caso, que mobilizou a comunidade local e gerou ampla repercussão, segue agora para uma nova fase. Enquanto a pena ainda não foi definida, a expectativa se volta para os próximos movimentos da Justiça e para a eventual judicialização do resultado do julgamento.

Relembre o Caso

     Eleci Faleiro, de 38 anos, natural de Tucunduva e moradora de Garibaldi foi encontrada morta por sua própria filha, no início da tarde da terça-feira, 29 de julho de 2025, no bairro São Francisco. Segundo a polícia, Eleci foi estrangulada pelo marido, que fugiu do local logo após cometer o crime. A ocorrência foi despachada pelo Centro de Operações da Polícia Militar (COPOM) após o chamado pelo telefone 190. Equipes do 3º Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (3º BPAT) foram enviadas ao local. Ao chegarem à residência, os policiais confirmaram que Eleci já estava em óbito.

     Imediatamente, as guarnições iniciaram buscas pela cidade. Pouco tempo depois, Adair Leonir Rommel, de 42 anos, foi localizado e preso pela Brigada Militar. Conforme relatos de amigos, ela e o marido haviam comprado uma casa nova este ano e de acordo com o 

 delegado da Polícia Civil que investigou o caso, Clóvis Rodrigues de Souza, a motivação do crime foi uma briga entre o casal, que não tinha registro de violência doméstica nem solicitação de medida protetiva de urgência. Os dois estavam juntos há quatro anos, e tinham uma filha de três anos na época do crime.
     Em depoimento, Adair teria dito que a companheira se trancou no banheiro após uma discussão. Na sequência, segundo o relato, ele teria arrombado a porta e cometido o feminicídio. Ainda segundo o delegado, o homem escreveu um bilhete em que confessava a autoria do crime. “Ele deixou a motivação escrita em uma nota. Depois, tentou tirar a própria vida, mas decidiu se entregar”, disse.

     O homem teria ido até a delegacia, no final da manhã, mas não havia ninguém ali. Segundo o delegado, o motivo seria o fato da equipe estar no local da ocorrência. O investigado retornou no início da tarde ao local, onde foi avistado e detido por uma guarnição da Brigada Militar. O corpo de Eleci foi velado na Igreja Nossa Senhora Aparecida, no bairro Fenachamp. O sepultamento ocorreu no cemitério municipal de Garibaldi.


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