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Prefeito chora ao ver sobrevivente que perdeu a perna na enchente: italianos choram junto em Garibaldi

Doações vindas da Itália garantem prótese ao caminhoneiro que ficou soterrado por dois dias na tragédia
14/10/2025 Em Garibaldi
Portal Adesso - Foto: reprodução ADESSO TV

     Em meio a aplausos, lágrimas e emoção, a história de um sobrevivente da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (13), em Garibaldi. Em uma manhã marcada por silêncios carregados e olhares marejados, Mateus Lando Piovesana, de 35 anos, entrou em cadeira de rodas no gabinete do prefeito de Garibaldi, Sérgio Chesini. A cena, cercada por autoridades italianas, secretários municipais, imprensa e cidadãos, ficou gravada como um momento de pura emoção: o prefeito embargou a voz, enxugou as lágrimas e abraçou o sobrevivente, enquanto a comitiva das cidades de Follina e Conegliano — que firmaram laços de amizade com Garibaldi — se comoveram.

     Auxiliado pelo vice-prefeito Adriano Carniel, Mateus dirigiu-se à aos italianos e fez seu agradecimento em dialeto vêneto, relembrou sua trajetória e destacou o gesto solidário que cruzou o oceano para chegar até ele. Ao final, apertou as mãos  e abraçou a prefeita Paola Carniello, de Follina, e trocou palavras emocionadas com o vereador Paolo Manzalini, de Conegliano, que também se viu às lágrimas ao escutar os relatos do brasileiro. Junto com ele, também estavam outros integrantes da comitiva como  representantes da Associazione Vêneto Brasil di Conegliano e representantes da Scuola Enologica G.B. Cerletti.

    Chesini ainda com a voz embargada disse: “Garibaldi chorou com ele. Chorou quando tudo desabou, e hoje chora de emoção e gratidão.” As palavras mal saíram, e o prefeito e o sobrevivente se abraçaram — um gesto que fez toda a sala se levantar em aplausos. 



Um sobrevivente da maior tragédia do RS

     A história de Mateus começou na madrugada do 1º de maio de 2024, quando as chuvas históricas atingiram o Rio Grande do Sul, transformando cidades inteiras em rios de lama. Na região da Serra, deslizamentos devastaram estradas e pontes. Piovesana se abrigou no Restaurante do Colau, na cabeceira da Ponte Ernesto Dornelles, do lado de Veranópolis, ele e outros motoristas ficaram no restaurante porque não tinham para onde sair. O caminhoneiro estava na varandinha que tinha atrás da tenda, olhou o celular, viu que estava com pouca bateria e decidiu ir no caminhão carregá-lo. Outros dois foram com ele e, antes de sair, conversaram. Logo após, escutaram um barulho, aí veio o vento, mais barulho e tudo desmoronou. 

      Quando o deslizamento ocorreu, Piovesana, assim como as outras pessoas abrigadas no restaurante, tentaram correr para longe, mas foram atingidos.

     Foram 48 horas de horror — ferido, sem comida, coberto por barro, à espera de socorro. O resgate só aconteceu no terceiro dia, pois o mau tempo prejudicou a chegada até o local das equipes. Quando os bombeiros do Rio de Janeiro chegaram de helicóptero ao local, Mateus já havia contraído infecção causada pelo tempo de soterramento. Após o resgate, ele passou 73 dias internado, 52 deles na UTI, e precisou enfrentar 16 cirurgias.




 Solidariedade que cruzou o oceano

     Amigos e familiares lançaram uma campanha para ajudá-lo a comprar as próteses aqui no Brasil. A comoção chegou até a Itália, onde as cidades de Follina e Conegliano, parceiras de Garibaldi,  através da Associazione Vêneto Brasil di Conegliano e da Scuola Enologica G.B. Cerletti, promoveram e organizaram eventos beneficentes como forma de auxiliar. Os recursos foram enviados para a Prefeitura de Garibaldi, que após aprovação da Câmara Municipal repassou os recursos. As doações internacionais, juntamente com o apoio dos brasileiros, possibilitaram que Mateus voltasse a sonhar com a reabilitação e a retomada da vida.

     As enchentes de 2024 foram consideradas a pior catástrofe climática já registrada no Rio Grande do Sul. Em muitas cidades, entre o fim de abril e início de maio, choveu o equivalente a meses em poucos dias. Mais de 180 vidas foram perdidas, infraestrutura ficou destruída e milhares foram deslocados. Na Serra Gaúcha, os efeitos foram dramáticos: encostas deslizaram, casas cederam, ruas se tornaram inacessíveis e moradores foram deslocados de bairros inteiros.

     Mas da tragédia emerge algo mais forte: a resiliência da população, o reencontro entre solidariedade local e internacional, e a criação de vínculos humanos que vão além de fronteiras. O gesto da manhã desta segunda-feira, marcado por lágrimas dos prefeitos e dos italianos, simboliza um pacto maior — o pacto da empatia.




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