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A vereadora e a matemática criativa das Fake News

O Instagram da vereadora era corajoso.... Até encontrar o processo judicial e o juiz
12/05/2026

     Existe uma coisa muito perigosa na política brasileira moderna: dar um celular com internet para alguém que não tenha boas intenções. Foi mais ou menos isso que aconteceu em Garibaldi.

     A cidade, conhecida pela champagne, pela tranquilidade e pelas disputas políticas que parecem reunião de condomínio gourmet, viveu nesta semana um dos episódios mais folclóricos da história recente da Câmara de Vereadores: o caso da lendária “revistinha de prestação de contas de R$ 600 mil”.

     Tudo começou quando a vereadora Luana Meneghetti (MDB) encontrou uma revista de prestação de contas da Prefeitura ainda lá em 2024. E aparentemente aquilo causou nela o mesmo impacto emocional que um europeu teria ao descobrir o rodízio de pizza brasileiro. Prestação de contas, para quem está acostumado com administração pública, costuma ser algo relativamente normal. Mas aparentemente a experiência foi tão chocante para a vereadora que os números começaram a crescer diante dos olhos dela igual massa de pão esquecida no forno.

     Onde havia um contrato amplo de publicidade, ela enxergou uma revista milionária.Onde havia cerca de R$ 58 mil, nasceu magicamente uma publicação de R$ 600 mil. Foi praticamente um milagre da multiplicação do dinheiro, como naqueles casos que a Polícia Federal apreende dinheiro na casa de políticos e eles dizem que nada tem a ver com a "bufunfa".

     A publicação da vereadora foi parar nas redes sociais e, claro, alguns acreditaram. Porque brasileiro não lê licitação, não abre Portal da Transparência e muitas vezes nem lê a matéria inteira. Mas se alguém escreve “ABSURDO!” seguido de um valor alto e um emoji bravo, pronto: está criada a CPI do grupo de WhatsApp. Em poucos minutos, a “revistinha” já parecia uma edição de luxo da Forbes impressa em papel egípcio, com lombada de diamante e páginas hidratadas com lágrimas de contribuinte. A internet entrou em surto.

     Teve cidadão indignado. Teve gente pedindo investigação internacional. Teve especialista em gestão pública formado pela Universidade Facebook comentando “eu sabia”. E provavelmente teve até alguém perguntando se a revista vinha com Wi-Fi grátis.

     O problema é que a Justiça resolveu cometer um ato extremamente deselegante para os padrões da política moderna: conferir os documentos. E aí veio a tragédia.

     O juiz de Garibaldi  basicamente concluiu aquilo que qualquer contador com duas horas de sono já tinha entendido: os R$ 600 mil não eram da revista. O valor fazia parte de um contrato muito maior de publicidade institucional. Já a famosa publicação custou cerca de R$ 58 mil. Ou seja, a vereadora pegou o preço do buffet inteiro e anunciou para a cidade como se fosse o valor de uma coxinha.

     Resultado: condenação por divulgar informação falsa, R$ 5 mil de indenização, custas processuais, honorários advocatícios e provavelmente uma dolorosa descoberta de que o Código Civil é menos amigável que os seguidores do Instagram dela.

     Mas o mais bonito foi que ela jamais desperdiça uma oportunidade de passar vergonha em público. Mesmo antes da condenação, a vereadora resolveu subir na tribuna da Câmara e ironizar o caso. Em tom indignado, afirmou sofrer perseguição política e soltou a frase que imediatamente entrou para o folclore legislativo da Terra do Champanha: “Eu adoro ouvir de gente que acredita em terra plana acusando os outros de fake news.”, disse ela. Foi um momento histórico. Quase artístico.

     Porque ela disse isso justamente durante um processo em que estava sendo acusada de espalhar informação falsa. Foi como ser pego pescando ilegalmente e começar uma palestra sobre preservação ambiental. Ou ser eliminado no bafômetro e reclamar da qualidade do álcool gel.

     Chega a ser cômico a pessoa tentando se defender de fake news… usando argumentos que parecem fake news.

     No fim das contas, a grande vítima dessa história toda talvez tenha sido a própria “revistinha”. Uma humilde revista de prestação de contas que nasceu apenas querendo informar obras, investimentos e ações da prefeitura, mas acabou sendo promovida ao status de objeto místico milionário, quase uma mistura de Bíblia de com catálogo da Louis Vuitton.

     A coitada saiu de uma gráfica comum de Garibaldi e, graças à criatividade política moderna, quase entrou para a lista das publicações mais caras da história da humanidade. Graças à criatividade contábil da política de Instagram, a coitada deixou de ser uma prestação de contas e virou quase a “Revista Caras do Setor Público Deluxe Premium Platinum”.

     Faltou apenas a vereadora dizer que a revista vinha com capa de ouro, folhas de seda italiana, QR Code que fazia PIX sozinho e assinatura premium da Netflix embutida. No fim, ficou a lição: em tempos de internet, uma calculadora quebrada, um story indignado e uma boa dose de imaginação conseguem transformar até prestação de contas em ficção científica.

     Já há quem diga que a vereadora estaria apta a disputar o campeonato mundial de fake news no peso pesado.





   



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Daniel Carniel

Daniel Carniel

Natural de Garibaldi, Daniel Carniel é formado em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo, e tem experiência em Rádio, TV, Jornal, e Assessoria de Imprensa. Iniciou a carreira na Rádio Planalto AM de Passo Fundo e atuou no Jornal Novo Tempo de Garibaldi, TV Record, e nas rádios Guaíba e Gaúcha de Porto Alegre. Acadêmico de Direito na Escola Superior do Ministério Público integrou a assessoria de imprensa do vice-governador do Rio Grande do Sul entre 2011 e 2014. Atualmente é sócio proprietário da Diffusione Comunicação,empresa que tem sede em Garibaldi RS
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