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Quando os imperadores da prefeitura descobriram que a cidade não vinha no inventário

Minhas Duas Décadas acompanhando a política de Garibaldi
04/05/2026

     Depois de quase vinte anos acompanhando a política de Garibaldi — e sobrevivendo a ela — aprendi uma verdade preciosa: nada sobe mais rápido à cabeça do que cargo público.

     Me formei em Jornalismo na UPF, em Passo Fundo, em 2007. Mais tarde veio o Direito, na UCS. Ou seja: passei tempo suficiente dentro de universidade, redação e bastidor político para desenvolver duas habilidades fundamentais: identificar conversa fiada e perceber político arrogante e metido a quilômetros de distância. E convenhamos: hoje isso virou quase uma especialização.

     Porque nos últimos anos surgiu uma epidemia curiosa na imprensa local. Gente que acha que fazer jornalismo é abrir Facebook, escrever três linhas sem vírgula, colocar “URGENTE” em caixa alta e esperar curtida de parente. Virou a era dos paraquedistas da informação. Sujeitos que confundem opinião com apuração, boato com notícia e grupo de WhatsApp com fonte oficial.

     Enquanto isso, quem passou anos estudando, escrevendo, acompanhando sessão de Câmara e ouvindo bastidor em corredor de prefeitura acaba desenvolvendo algo raro atualmente: repertório. E repertório, na política, é perigoso. Porque memória é o maior inimigo de quem vive de narrativa conveniente. E olha… Garibaldi já teve alguns profissionais nessa área.

     Quando voltei para trabalhar no Jornal Novo Tempo em 2007, encontrei uma cidade politicamente previsível. Existia um grupo que governava com a tranquilidade de quem acreditava que a prefeitura era patrimônio hereditário. Faltava pouco para colocarem um brasão da família na entrada do gabinete. Mandavam em tudo. Decidiam tudo. E a oposição da época ajudava bastante, diga-se de passagem. Era uma oposição tão frágil que, se participasse de rodeio, perderia no laço para um cone de trânsito.

     Enquanto isso, os “donos da cidade” circulavam pela prefeitura com aquela segurança típica de quem jamais imaginou perder eleição. Só que existe uma coisa maravilhosa na democracia: ela adora destruir certezas.

     Vieram denúncias, Desgastes, Operações da Polícia Federal, Dinheiro na Casa de Secretário Municipal, Escândalos. E principalmente uma tragédia para qualquer grupo acomodado: o eleitor começou a pensar.

     Aí veio 2020. E os reis descobriram, da pior forma possível, que urna eletrônica não reconhece sobrenome como título de nobreza.

    O mais divertido disso tudo é que o grupo político que hoje domina o cenário municipal era justamente aquele que, lá em 2007, mal conseguia organizar uma oposição minimamente competitiva. Na época, pareciam banda de abertura em show vazio. Hoje controlam o palco principal.

    Mas existe uma diferença importante. Os atuais entenderam algo que os antigos jamais compreenderam: prefeito não é imperador e prefeitura não é capitania hereditária. Garibaldi mudou muito. E mudou para melhor.

     A cidade finalmente começou a resolver problemas históricos que durante anos eram tratados quase como atrações turísticas. Hoje praticamente não existe mais criança sem creche ou escola. As obras têm qualidade melhor, e o antigo “asfalto casca de ovo” começou a entrar em extinção.

     Porque tinha pavimentação antigamente que emocionava. Durava menos que promessa de fidelidade em reality show. Bastava cair duas chuvas e o asfalto já iniciava o processo de separação litigiosa com a rua. Claro que a política continua sendo política.

     Ainda existem egos inflados, vaidades gigantescas e gente brigando por cargo com mais emoção do que disputa de herança. Mas confesso uma coisa: apesar de considerar a gestão atual mais eficiente, a oposição antiga era menos surtada.

     Havia crítica, Provocação e Fofoquinha de corredor. Mas existia algum limite entre discordar e enlouquecer.

     Hoje parte da política virou uma espécie de laboratório industrial de fake news. Tem cidadão que acorda às seis da manhã determinado a salvar a democracia de um poste novo, uma lombada ou uma poda de árvore. Se o prefeito espirra, meia hora depois aparece áudio em grupo dizendo que foi manobra e correm para denunciá-lo na Coordenadoria de Saúde ou Ministério Público.

     E eu digo isso com a tranquilidade de quem acompanha bastidor político há duas décadas e já ouvi conversa suficiente em corredor de prefeitura para escrever umas oito temporadas de House of Cards versão Garibaldi.

     A diferença é que, aqui, o golpe de Estado normalmente começa depois de um café, um áudio vazado e alguém jurando que “não queria comentar, mas já comentando”. Mas no fim, existe uma notícia boa em tudo isso.

     Garibaldi amadureceu. A cidade entendeu que não possui dono. Quem manda não é sobrenome. Não é grupo político. Não é quem fala mais alto em discursos.

     Quem manda é o eleitor. E talvez essa seja a coisa que mais assusta certos personagens da política local até hoje.

     Descobriram tarde demais que a coroa era de papelão.



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Daniel Carniel

Daniel Carniel

Natural de Garibaldi, Daniel Carniel é formado em Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo, e tem experiência em Rádio, TV, Jornal, e Assessoria de Imprensa. Iniciou a carreira na Rádio Planalto AM de Passo Fundo e atuou no Jornal Novo Tempo de Garibaldi, TV Record, e nas rádios Guaíba e Gaúcha de Porto Alegre. Acadêmico de Direito na Escola Superior do Ministério Público integrou a assessoria de imprensa do vice-governador do Rio Grande do Sul entre 2011 e 2014. Atualmente é sócio proprietário da Diffusione Comunicação,empresa que tem sede em Garibaldi RS
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