URGENTE: Nasceram duas bezerras - E com elas, morreu mais um pedaço do Jornalismo
Há tempos o jornalismo vem dando sinais de cansaço. Não daquele cansaço digno de quem passou a noite apurando dados, checando fontes e confrontando versões. É outro tipo de fadiga: a exaustão criativa, intelectual e ética de quem confunde publicação com produção e acha que informar é apenas apertar “publicar” antes do concorrente — ou do vizinho.
Quando o nascimento de duas bezerras vira manchete, não é apenas a pauta que está em crise. É o conceito. É o critério. É a noção mínima do que seja relevância pública. Não se trata de desprezar o agronegócio, a vida no campo ou a ternura dos filhotes. Trata-se de fazer uma pergunta básica, elementar, quase ofensiva de tão simples: qual o impacto dessa notícia na vida da comunidade? A resposta, infelizmente, é nenhuma. Zero. Nulo. Nem a vaca-mãe foi entrevistada. Se bobear, a publicação ( que não dá para chamar de notícia) ganha até atualização ao longo do dia: “Bezerra mama”, “Bezerra dorme”, “Bezerra reflete sobre o sentido da vida”.
Agora, se o nascimento dessas bezerras estivesse associado a uma anomalia genética capaz de comprometer a cadeia de laticínios, a produção de carne ou a economia regional, aí sim estaríamos diante de um fato jornalístico. A diferença entre uma coisa e outra chama-se avaliação editorial — um termo cada vez mais raro, quase em extinção, como se fosse uma espécie protegida pelo Ibama do bom senso. O jornalismo, que já foi sinônimo de investigação, análise e serviço público, agora parece disputar espaço com mural de recados de grupo de família. A diferença é que no grupo da família ainda existe um certo constrangimento. Em alguns veículos de comunicação, não. Publica-se sem pudor, sem critério e, principalmente, sem a menor ideia do papel da imprensa numa comunidade.
O problema não é a falta de acontecimentos. É a falta de preparo para reconhecê-los. O jornalismo, que deveria ser filtro, virou funil entupido. Tudo passa. Tudo vira “conteúdo”. O importante hoje não é informar, contextualizar ou provocar reflexão, mas “vomitar” textos em série, muitas vezes infundados, mal escritos e travestidos de notícia apenas para alimentar o algoritmo faminto das redes sociais.
Jornalismo virou volume. Quem grita mais, posta mais e publica mais, vence — ainda que não diga absolutamente nada. Nesse cenário, qualquer um virou jornalista. Não por vocação, estudo ou compromisso, mas por insistência. “Preteou o olho da Gatiada”: basta um celular na mão, um título exagerado e pronto — nasce mais um “veículo de comunicação”. O resultado é essa sopa rala de irrelevância, onde fato e fofoca disputam espaço e quase sempre a fofoca ganha por ser mais curta e dar menos trabalho.
Não precisa estudar, entender de ética, conhecer história ou saber diferenciar fato de curiosidade. Basta um celular. Enquanto isso, problemas reais seguem sem cobertura, debates essenciais são ignorados e decisões que impactam a vida coletiva passam despercebidas. Mas fiquem tranquilos: se nascer mais uma bezerra amanhã, alguém vai avisar. Com foto, legenda emotiva e, quem sabe, um “siga nosso perfil para mais notícias relevantes”.
O papel da imprensa numa comunidade não é enfeitar o vazio, mas iluminar o que importa. É selecionar, hierarquizar, contextualizar. É entender que qualidade sempre foi — e sempre será — mais importante do que quantidade. Enquanto isso não for levado a sério, seguiremos celebrando o nascimento de bezerras como se fosse um marco histórico, enquanto o jornalismo, silenciosamente, segue sendo abatido no fundo do poço.
O jornalismo não morreu de repente. Ele está sendo lentamente atropelado por bezerras, cliques fáceis e pela completa ausência de critério. E o mais trágico de tudo: muita gente ainda aplaude.
